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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Réveillon (ainda) pandêmico: você não é perdedora por passar virada em casa

Vou passar o Réveillon em casa e sei que não serei a única. - Dusan Stankovic/Getty Images
Vou passar o Réveillon em casa e sei que não serei a única. Imagem: Dusan Stankovic/Getty Images
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

31/12/2021 04h00

Lá no início da pandemia eu, como muitos, acreditava que um dia iríamos tomar a vacina e isso significaria o fim do isolamento. Sairíamos pelas ruas em uma grande festa e o Réveillon pós vacina seria inesquecível. Como éramos ingênuos.

Dezembro de 2021. Tenho três doses da vacina (e sou grata a cada uma delas e sei que isso é um privilégio e que por causa delas, mesmo se me contaminar, tenho pouquíssimas chances de ficar seriamente doente) mas vou passar a segunda virada de ano seguida em casa. Vou seguir as recomendações do país onde moro, a Alemanha. Assim como em outros países da Europa, os casos da ômicron estão crescendo muito por aqui e o 2022 começa com ameaça de um novo lockdown.

Mas sei que não sou a única que meia-noite pode já estar dormindo,

No Brasil, os especialistas também estão em alerta e, além dos casos de ômicron, há uma epidemia de influenza.

No momento, tenho uma amiga no Brasil que vai passar em casa sozinha porque está com coronavírus (vacinada, graças à ciência e, por isso, sem sintomas). Mais duas amigas de cama com influenza. E outras que, até tinham pensado em comemorar com um pequeno grupo de amigos, mas souberam que pessoas próximas estão contaminadas e decidiram não se arriscar.

Fora isso, claro, o Brasil e o mundo estão em uma terrível crise econômica. Ter dinheiro para viajar é coisa para poucos, pouquíssimos.

Somos muitos os que não vão fazer nada. Mas, mesmo assim, e acredito que isso não aconteça só comigo, corremos o risco de passar o ano novo olhando o Instagram e pensando: "só eu estou em casa!". Isso porque, quando olhamos a rede social, temos a impressão (obrigada, algoritmo!) de que todo mundo está passeando, indo a festas, visitando praias e curtindo em grandes grupos.

E, quando olhamos as fotos e os vídeos desses amigos e das celebridades, nos comparamos com elas. Se você falar que nunca faz isso, desculpe, você está mentindo.

Ao olhar toda aquela alegria, começamos a pensar: "só eu não estou fazendo nada!". "Sou uma perdedora". "Minha vida é péssima". Sim, são pensamentos infantis. Mas uma das mágicas das redes sociais é transformar todos nós, adultos, em adolescentes de 15 anos. Mas não podemos cair nessa.

Para não começar a se sentir mal ao se comparar com o feed do Instagram, nada como lembrar da realidade. Sei que ninguém aguenta mais ouvir essa frase, mas a pandemia não acabou. E essa é a maior crise enfrentada pela humanidade desde a Segunda Guerra Mundial!

E se a gente está vacinado e com grandes chances de passar pela pandemia vivo, isso já é uma vitória e tanto e uma coisa para comemorar. Mas... bem, seria legal comemorar com os amigos em uma festa? Seria. Vai rolar? Para muitos de nós, não.

Mas, na boa, se a pandemia servir para alguma coisa (já sabemos que não vai ser para mostrar que as pessoas são melhores) que seja para a gente parar de se comportar como adolescentes de 15 anos mimados. Não é possível que, depois de tanto tempo, não tenhamos aprendido a lidar com frustração e com mudança de planos. Eu sei, não é fácil, estou repetindo essas coisas para mim mesma. Mas estamos vivos. Esse é o mantra.