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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vaia a DJ Ivis é justa porque violência contra mulher não é erro, é crime

DJ Ivis foi vaiado em show em São Paulo - Reprodução / Internet
DJ Ivis foi vaiado em show em São Paulo Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

06/12/2021 13h13

O que acontece com um agressor de mulheres? No Brasil, isso depende muito de quem ele é. Se famoso, pode ser que o sujeito ganhe vaga em um reality show (já aconteceu com vários), conquiste fãs e ganhe um milhão. Ou seja, pode ser até um bom negócio. Em muitos casos, a agressão vai para baixo do tapete.

Mas talvez as coisas estejam mudando para melhor. Uma prova disso: DJ Ivis, que causou horror e revolta no país quando imagens dele agredindo a ex-mulher na frente do filho do casal viralizaram em julho, teve que sair fugido de um show em São Paulo de tanta vaia que levou do público. O evento aconteceu no sábado (4). A maioria dos presentes, revoltados, gritavam: "Fora!"

Ivis saiu da prisão em outubro. Ele foi preso depois de ser indiciado pela polícia do Ceará e ter uma denúncia acatada pelo Ministério Público em agosto. O produtor foi solto por um habeas corpus. Mas ainda é réu.

O público está errado em vaiar alguém que sobe aos palcos em um momento desses como se nada tivesse acontecido? Não acho.

Violência contra mulher é um crime sério, que precisa ser condenado pela sociedade e não aplaudido.

Mas, infelizmente, principalmente entre os homens, esse tipo de crime ainda é tratado como "um vacilo", um "errinho", "uma coisa de nada". Uma prova disso é a força que Ivis tem recebido de amigos famosos no seu gênero musical.

Mal saiu da prisão, ele já tenta recuperar sua carreira como se nada tivesse acontecido. Para isso, conta com ajuda de amigos como Wesley Safadão, (que gravou uma música de Ivis enquanto ele estava preso), Tarcísio do Acordeon e João Gomes.

Nas redes sociais, no mesmo dia em que Ivis era vaiado, eles elogiavam o produtor. No fim de semana, Ivis pagou de bonito em camarotes vips e postou fotos com "fãs" no Instagram. No que depender de sua consciência e de seus amigos, ele retornará a carreira numa boa e a agressão vai se transformar em um probleminha que o "coitado" teve. Cabe ao público não aceitar essa banalização do crime.

Sociedade cansou de passar pano para acusados?

Talvez parte da sociedade tenha mesmo cansado de passar pano para acusados de agressão. No mesmo fim se semana em que Ivis foi vaiado, o Corinthians informou ter suspendido um contrato com o jornalista "Cartolouco", Lukas Strabko, depois de grande pressão da torcida nas redes sociais.

Motivo: ano passado, veio a público denúncias de que Strabko teria agredido uma ex-namorada. Na ocasião, o UOL teve acesso a prints onde ele assumia o que fez para um amigo e ouviu duas ex namoradas do jornalista que o acusam.

Não querer que acusados de agressão representem um time de futebol ou cantem em um show é um direito do público que, pelo jeito, não aguenta mais ver acusados de agredir mulheres serem recompensados. Já é alguma coisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL