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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Lu", "Iana": por que até as assistentes virtuais são mulheres padrão?

Iana, assistente virtual das Havaianas  - Reprodução
Iana, assistente virtual das Havaianas Imagem: Reprodução
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

26/11/2021 04h00

"Alexa, toca Legião". "Siri, como eu faço para chegar a Pinheiros?". "Aqui é a Lu. Como posso te ajudar?". Você já deve ter reparado: as assistentes virtuais, os robôs modernos, que servem para executar tarefas de casa ou ajudar consumidores a tirarem dúvidas e efetuarem compras, são, quase que exclusivamente, mulheres.

Esse fato já assustou até a ONU, que emitiu um comunicado em 2019 alertando para o sexismo no fato das assistentes virtuais mais famosas serem mulheres. A organização se referia principalmente às assistentes domésticas, como Alexa e Siri.

2021, véspera da Black Friday, quando as assistentes virtuais "trabalham" como nunca e algumas novas chegam ao mercado. Para a surpresa de ninguém, elas ainda são mulheres E não é só isso: pelo menos 90% delas são jovens, magras, dentro do padrão. Como disse minha editora Bárbara dos Anjos Lima: "Mulher, até quando é robô, tem quer ser padrãozinho". É bizarro.

Garota "good vibes"

O lançamento da semana é Iana, das Havaianas, uma garota "good vibes", jovem, bonita e totalmente padrão. Além de ser assistente, ela também trabalha de modelo para a marca. Iana é uma mulher moderna, que "ama seu doguinho". Mas, assim como as outras assistentes, parece uma fantasia sexual masculina materializada em forma de robô. Tem fantasia mais clichê do que uma gostosa que está sempre te dizendo: "Em que posso te servir?".

Talvez as marcas criem essas "robôs" achando que as mulheres irão se identificar com elas, caso das grandes magazines. Segundo pesquisa do site Bloomberg, em todo o mundo, mulheres são responsáveis por cerca de 70% das compras nesse tipo de loja.

No Brasil, as assistentes virtuais que "trabalham" para essas marcas são, em geral, mulheres estilo "modelo". Se é para causar identificação com as consumidoras, elas poderiam ser mais próximas a mulheres reais, não?

Negras e plus size

Mas dando uma olhada no cardápio das assistentes, parece que o Brasil é um país formado só por mulheres jovens e brancas. Sim, existem exceções, como a Nat, da Natura, que é negra, e a Dai, da Daillus, que é pluz size. Mas a maioria segue o padrão da "Lu", da Magazine Luíza, a assistente influencer veterana e celebridade, lançada em 2003.

Já se vão quase 20 anos, mas o padrão pouco muda. Iana, das Havaianas, não está sozinha nessas. Rennata, lançada em junho pela Renner, tem o mesmo estilo. Só muda a cor do cabelo. Ela é uma morena sensual, mas descolada, gaúcha, de 34 anos. Já a Riachuelo anunciou em outubro que lançará três mulheres assistentes e influencers ao mesmo tempo: Helô, Helen e Helena.

Todas as "grandes novidades" apontadas pelas marcas são mulheres, claro. Como se essa fosse uma coisa natural e a gente tivesse nascido para servir.

A tecnologia é de ponta. Mas o padrão continua sendo aquele do século 19, no qual as mulheres ideais são aquelas meigas e sempre prontas para, com um sorriso delicado no rosto, perguntar: "Como posso te ajudar"? Até quando?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL