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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Homens como Rodolffo devem aprender a ouvir quem aponta seus preconceitos

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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

22/11/2021 12h45

"É muito complicado o mimimi de hoje em dia." Essa frase foi dita pelo cantor Rodolffo no BBB 21 para Camilla de Lucas. Na ocasião, a modelo tentava explicar para o cantor por que ele tinha sido racista (ele comparou o cabelo de João com o de um homem das cavernas, o que motivou crises de choro do professor).

Em sua participação no BBB, Rodolffo também teve atitudes consideradas machistas e homofóbicas. Agora, o cantor é acusado de novo. Desde o fim de semana, quando lançou a nova música de sua dupla sertaneja Israel & Rodolffo, "Dar uma Namorada", um sucesso que já teve mais de 4 milhões de views no YouTube, ele vem sendo acusado de machismo e até de apologia ao estupro.

A letra da música diz diz coisas como: "Cê não vai me iludir de graça. Me atiçou, vai ter que dar uma namorada. Cê não tá querendo rolo, então não caça".

A primeira a denunciar o conteúdo machista da música foi a psicanalista e influenciadora digital da causa feminista Manuela Xavier, que fez um vídeo sobre o tema. Um dos autores da música, Ciro Neto, em seguida usou suas redes sociais para chamar a crítica de "mimimi". Alguém surpreso?

Já Rodolffo deixou um comentário diretamente para Manuela, onde foi educado e tentou se mostrar amigo da causa feminista:

"Olha, eu acho que primeiramente você está exagerando nas observações, pois a gente faz música para homem e para mulher. Uma mulher pode cantar para um homem essa letra, ela é unissex. É uma música alegre, divertida. Sou totalmente a favor da causa. Estou com você! Agora vir criticar o meu trabalho induzindo as pessoas a acharem que é uma música machista não. Foi feita para mulher cantar também".

'Amigo da causa'

"Amigo da causa". "Estou com você". Rodolffo, pelo jeito, tem uma boa equipe de marketing trabalhando com ele e aprendeu que se mostrar inimigo da causa feminista pega mal. Por isso, como muitos outros artistas, quando criticado, ele tentou se mostrar aliado. E não, não estou dizendo que um homem não pode ser "amigo da causa". De jeito nenhum. Claro que pode. E a primeira coisa a fazer, para mostrar esse comprometimento em ajudar, seria ouvir o que nós, mulheres, falamos.

E Rodolffo não ouviu. Ele acabou fazendo "mansplaining" de feminismo para uma feminista e, de quebra, quase a chamou de louca ("sua exagerada!").

Custa ouvir as críticas e acusações e realmente pensar sobre elas? Só assim vocês poderão ser "amigos da causa". Sair explicando que nossas críticas são erradas e que "viajamos", para nós, não é prova de estar junto.

O mesmo vale para nós, brancos, quando nos deparamos com acusações de racismo. A gente tem que escutar e ir para o cantinho pensar. Não fazer como Rodolffo e sair chamando de "mimimi".

Chamar de "mimimi", gritar "descansa, militante" é mais uma maneira de não pensar sobre o assunto e continuar preconceituoso. E isso não tem assessoria de marketing que resolva.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL