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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Frida Kahlo bate recorde e desbanca Diego Rivera. Não é vingança, é justiça

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Imagem: Reprodução
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

19/11/2021 15h53

Frida Kahlo é uma artista genial e também um ícone pop. Mesmo quem não entende nada de arte reconhece uma pintura da artista mexicana, que se tornou um símbolo feminista. Desde terça-feira (16) uma obra da Frida atingiu o valor mais alto entre todos os artistas latino-americanos. Seu quadro "Diego e eu" foi vendido por 34,9 milhões de dólares (191,9 milhões de reais) em um leilão na Sothebys, em Nova York.

E tem mais: em uma espécie de vingança do destino, quase 70 anos depois da sua morte, Frida desbanca Diego Rivera, seu marido abusador. Sim, até então ele estava no topo da lista das obras latino-americanas desde 2018, quando uma obra sua ("Os rivais") foi vendida por 10 milhões de dólares. Frida o lançou para o segundo lugar com distância.

É um feito e tanto. É histórico. Principalmente porque o mercado das artes está entre os que apresenta maior disparidade de gênero. Entre 2000 e 2017, segundo dados do levantamento "Art Market 2019", trabalhos feitos por mulheres representaram apenas 4% das vendas. A disparidade de valores entre obras de homens e mulheres, segundo os pesquisadores, é maior em países com grande desigualdade de gênero, como o Brasil e o México de Frida.

Mas a disparidade é mundial e vai demorar muito para ser superada. Nenhuma mulher figura nas listas das obras de arte mais caras já vendidas em termos globais. Apesar de, segundo estudiosos, 50% dessas obras retratarem mulheres. Sim, por anos e até hoje, mulheres ocupavam o lugar de musas, de objetos de admiração e não de donas da própria história.

Símbolo pop

Deve ser também por isso que Frida Kahlo é tão popular e um símbolo feminista tão forte. Ela se apoderou de cada centímetro da sua história e, em vez de deixar que os homens a contassem, a retratou brilhantemente em suas obras intensas e doloridas. Todas as cicatrizes estão lá, tanto as físicas como as emocionais.

A obra que bate recorde e desbanca Diego não poderia ser mais emblemática. Em "Diego e eu", o marido, com quem manteve um casamento conturbado e dolorido durante muitos anos, aparece como uma imagem em sua testa — alguém que, literalmente, não sai de sua cabeça. E, vamos combinar, não deixa de ser delicioso que um homem, no caso, seja muso, papel tão ocupado por mulheres.

O autorretrato foi feito em um dos momentos mais difíceis da vida de Frida. Ela sofria dores intensas por conta de uma de suas inúmeras cirurgias quando Diego começou um caso com uma amiga, María Félix. Ele também se relacionou com uma das irmãs de Frida.

A "vitória" póstuma de Frida Kahlo no mundo das artes tem, sim, gosto de vingança. Mas o sentimento de justiça é maior. Dá gosto ver uma artista mulher tão importante finalmente ter seu trabalho valorizado como merece. Para que o valor de sua obra ultrapassasse o dos homens, ela teve que virar um verdadeiro mito, praticamente uma instituição não só latino-americana, mas mundial. Frida abriu muitos caminhos, mas ainda falta muito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL