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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Sob nova direção': por que fala de Lívia Andrade é prejudicial às mulheres

Lívia Andrade (Foto/ Reprodução Instagram) - Reprodução / Internet
Lívia Andrade (Foto/ Reprodução Instagram) Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

01/10/2021 15h34

"Comigo ele vai ser diferente." "Agora, que está comigo, ele virou um novo homem." "Ele era assim, mas comigo ele vai mudar". Quase todas as mulheres que eu conheço já acreditaram, em algum momento da vida, que poderiam mudar um homem. Boa parte de nós já passou um bom tempo fazendo um trabalho de rehab. Até que, com a maturidade, a maioria aprende uma coisa: ninguém muda ninguém. As pessoas podem mudar? Podem, claro. Mas só se elas quiserem.

Difícil é por isso na prática e sempre aparece alguma mulher fazendo isso de novo. A do momento é a apresentadora Lívia Andrade, que está envolvida em uma grande confusão por causa do novo namorado, o empresário Marcos Araújo e, de quebra, com a sua ex mulher e mãe dos seus filhos, a influenciadora Pétala Barreiros.

Em uma entrevista que deu para falar sobre o caso (em que ela passou quase uma hora e meia falando mal de outra mulher e da família dela, o que é triste), Lívia disse, ao exibir orgulhosa uma foto dela com o namorado: "Essa imagem é atualizada, dele sob nova direção, onde você vê uma pessoa leve, uma pessoa feliz. Ele está uma pessoa muito melhorada."

É comum, repito, que a gente ache que pode "melhorar um homem". Apesar disso, na maioria das vezes, ser uma grande roubada. E 'sob nova direção"? Homens não são estabelecimentos comerciais que a gente reforme.

O caso da apresentadora serve de exemplo também porque o namorado em questão é acusado pela ex de agressão, de não pagar pensão e de abandono dos filhos. Livia causou polêmica ao aparecer em um exame de DNA a que um dos filhos de Pétala foi submetido.

Na entrevista, a apresentadora acusou a influenciadora e sua família de só estarem interessados em dinheiro. Mas, vamos deixar essa briga pra lá. O que interessa: várias mulheres (e quem nunca fez isso que atire o primeiro celular) já começaram relacionamentos com homens com fama de terem feito coisas horríveis com outras mulheres pensando: "comigo vai ser diferente."

Que narcisismo é esse, que faz com que a gente ache que tem essa capacidade de transformar alguém?

Já vi de um tudo nessa vida: mulheres achando que homens depressivos deixariam de ser assim (e elas não eram suas psicanalistas, mas suas namoradas), outras que acreditaram que um cara com uma mega fama de cafajeste, beirando o abuso emocional, seria diferente com ela. E já caí nessa também. Quem nunca? Dificilmente dá certo.

No meu caso, me lembro de um sujeito que tinha fama de fazer declarações de amor, falar em ter filho e, do nada, terminar sem motivo. Atualmente, ele seria chamado de um cara que "dá ghosting". Caí. Achei que seria diferente. Claro, não foi. Depois de juras de amor e planos, ele sumiu sem motivo. Soube, aliás, que o cara continuou a fazer isso vida a fora com várias mulheres com quem cruzou.

Desde que passamos a ser mulheres emancipadas (ainda bem!) passamos a achar também que poderíamos (e tínhamos) que fazer tudo: trabalhar, cuidar dos filhos, empreender, estar sempre linda... É um trabalho emocional pesado e que deixa mulheres doentes. E ainda acrescentamos a isso a tarefa de "reformar um homem"?

Se você está com muita vontade de fazer uma reforma, é mais fácil pintar a parede do seu quarto, mudar os móveis de lugar. São tarefas menos exaustivas. E com mais chance de darem certo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL