PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sensacionalismo da Record ao tratar assédio submete vítima a mais abuso

Dayane Mello em A Fazenda (Reprodução/Record TV). - Reprodução / Internet
Dayane Mello em A Fazenda (Reprodução/Record TV). Imagem: Reprodução / Internet
Conteúdo exclusivo para assinantes
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

27/09/2021 14h13

Quando uma mulher sofre abuso sexual, ela precisa receber tratamento adequado. O indicado é que essas mulheres sejam acolhidas por psicólogas. No caso de depoimentos à polícia, o indicado é que elas conversem com policiais femininas, acostumadas a lidar com esse tipo de caso. Isso é o que o bom senso básico indica. Quase todo mundo sabe. É o que vemos até nos seriados de TV.

E isso é o contrário do que foi feito pela TV Record após um dos piores momentos do programa. Na sexta-feira, a modelo Dayane Mello sofreu assédio dentro do programa de Nego do Borel. E a maneira com que a vítima foi tratada pela direção do programa foi um show de horror. A emissora submeteu Dayane a um "interrogatório" - e ainda por cima exibiu na TV.

Para quem não teve o desgosto de saber o que houve: depois da uma festa na casa, a modelo ficou completamente bêbada e, mesmo depois de ouvir "vários nãos", o cantor continuou a tocando. Ter relação sexual com uma mulher bêbada (vulnerável) sem consentimento configura estupro. Sério assim. Depois de imensa pressão popular, a Record expulsou o cantor na tarde de sábado. Agora, ele vai responder a um inquérito policial.

A rede de TV informou que Dayane teria tido aconselhamento psicológico. Mas o que vimos foi um interrogatório que, segundo Adriane Galisteu disse no programa, teria sido feito por alguém da direção.

Sim, eles transmitiram, em nome da audiência, uma conversa com uma mulher vulnerável. Ver causa engulhos. A edição do programa ainda decidiu entremear o tal interrogatório, com "momentos" do abuso. Repetiram na televisão cenas de uma mulher sofrendo assédio. Submeter uma vítima a tanta exposição é um abuso.

E dói pensar nisso, mas, ao sair da casa, provavelmente ela vai ver o programa, assim como sua filha, sua família. Eles não pensaram nisso? A equipe da modelo percebeu isso e emitiu um comunicado neste domingo manifestando repulsa à produção do programa, que, segundo eles, teria "banalizado um caso tão grave."

Além de Dayane, nós, mulheres, também sofremos ao ver as cenas. Para quem já sofreu abuso do mesmo tipo, deve ter sido terrível.

Cadê o profissionalismo?

Essa não é a primeira vez que crimes (ou suspeitas) são cometidas dentro de reality shows. Na última edição do Big Brother, por exemplo, o cantor Rodolffo teve uma atitude racista com o professor João Luiz, ao comparar seu cabelo com o de um homem das cavernas. João percebeu a agressão que passou a expôs. A Globo usou a dor de João para ganhar audiência? Sim. Mas pelo menos Tiago Leifert conversou com a casa de maneira aberta e explicou, junto com João e Camilla de Lucas, porque o professor tinha sido vítima de racismo.

No caso da Record, depois de uma acusação de tentativa de estupro, tudo o que o programa mostrou foi Adriane Galisteu falando a frase "não é não". E ficou por isso.

O BBB não é, de forma alguma, um exemplo de programa bom, muito pelo contrário, os personagens machistas e muitos abusadores já passaram por lá também. Mas os casos são tratados pelo menos com um mínimo de profissionalismo.

No caso da Record, falar em desserviço é pouco. O que a emissora ofereceu para a audiência foi um show de gatilhos. A vítima não é só Dayane.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL