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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Ninguém está bem': precisamos naturalizar as crises da pandemia

Sammy Lee falou em suas redes sociais que está com depressão - Instagram
Sammy Lee falou em suas redes sociais que está com depressão Imagem: Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

17/08/2021 04h00

"Ninguém está bem". "Estar angustiado é normal". Desde que a pandemia começou, repetimos isso todos os dias para nós mesmos. Tentamos nos convencer com esses mantras que não somos os únicos que estão com problemas de dinheiro, em crise no relacionamento, sem libido ou com problema com os filhos. E que não somos só nós que estamos angustiados, ansiosos e com medo de morrer.

Não é fácil. Principalmente porque a maior janela para o mundo para a maioria de nós são, mais que nunca, as redes sociais. E, ali, mais uma vez, a maioria das pessoas parece estar lidando com todo esse horror que é viver quase um ano e meia em pandemia, com quase 600 mil brasileiros mortos, numa boa e sem grandes crises. Os casais continuam fogosos e quentes, os filhos parecem sob controle e nascidos em parto natural. Todos parecem focados.

Mas, será que é verdade? Aposto que não é. Quando as luzes dos nossos celulares se apagam e não estamos gravando, estamos, em grande maioria, passando por crises. O que, repito (não só para tentar me convencer) é absolutamente normal. Estamos esgotados. Mas, quem assume?

Semana passada, duas famosas abriram o jogo sobre o que se passa por trás das cenas e expuseram as crises por quais passam durante a pandemia.

A apresentadora Titi Muller deu uma entrevista para a revista "TPM", onde com muita honestidade, contou, entre outras coisas, que se separou do músico Tomás durante a pandemia, depois de ter um filho, Benjamin, no meio do isolamento, sem poder encontrar as irmãs ou contar com alguma ajuda. Ela disse que sentiu uma enorme solidão.

Compreensível. Quantas mulheres que tiveram filhos durante a pandemia também não se sentiram claustrofóbicas e solitárias?

A outra mulher famosa a se abrir foi a influenciadora Sammy Lee, que passa por um período de depressão depois de ter se separado de Pyong Lee e perdido a mãe. Ela contou, inclusive, que já teve depressão severa.

Não estou falando que estamos todas deprimidas (se você estiver, procure um médico). Mas, com certeza, estamos mais ansiosos, desesperançados e com medo. E muitos de nós, assim como Sammy, passam por lutos. Isso precisa ser naturalizado e aceito.

Talvez tenha chegado a hora da gente naturalizar estar em crise, vivendo entre altos e baixos e parar de, como diz uma amiga, brincar de "os comensais do Titanic", aquelas pessoas que, enquanto o famoso navio afundava, tomavam drinks e jantavam como se nada estivesse acontecendo.

Não está fácil para ninguém. Estamos todos meio surtados. E não há nenhum problema nisso, inclusive. Assumir isso só vai nos deixar mais leves.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL