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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Djokovic x Biles: por que alguns homens acham que saúde mental é 'mimimi'?

Simone Biles durante as Olimpíadas - GettyImages
Simone Biles durante as Olimpíadas Imagem: GettyImages
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

03/08/2021 04h00

Semana passada, a ginasta Simone Biles anunciou que não participaria de diversas competições nas Olimpíadas onde era favorita porque precisava cuidar da saúde mental (ela deixou de participar em quatro finais onde era uma das favoritas). Dias depois, o tenista Novak Djokovic também falou sobre o tema. Mas teve uma reação de "macho" negacionista de saúde mental. A fala de Djoko não foi diretamente sobre Simone mas foi deixou claro o que ele pensa sobre o tema:

"Se você quer ser top nos jogos, tem que começar a aprender a lidar com pressão dentro e fora da quadra". Ele ainda explicou que não se afetava com a pressão. "Aprendi a desenvolver um mecanismo para gerir isto, para que não me incomode mais, não me canse", disse, exibindo toda a autoestima característica de um homem hétero que se acha.

Alguns dias depois, ele teve uma reação super "equilibrada" ao perder um jogo (contém ironia). Ao perder uma partida da semifinal, o tenista amassou a raquete na grade e a jogou em cima dos fotógrafos. No mesmo dia, participaria do torneio de duplas mistas, onde disputaria a medalha de bronze. Desistiu, alegando dor no ombro.

Como se pode ver, trata-se de um sujeito que sabe lidar super bem com a pressão dentro e fora da quadra. Só que não.

Djokovic é um exemplo daqueles homens que chamam mulheres de loucas, acham que saúde mental é frescura, mimimi. E reagem aos berros quando recebem uma cortada no trânsito. Ou gritam com pessoas e socam as paredes em momentos de "estresse". Mas acham que quem procura terapia "é fresco". E, claro, eles nunca surtam. Eles ficam "estressados".

Não por acaso, homens ainda são minoria nos consultórios de terapia. O que é um problema seríssimo, inclusive porque 75% dos suicídios são de homens. Ou seja, é claro que os homens também ficam mal. Mas aí entra a masculinidade tóxica, aquele sistema que diz absurdos como "homem não chora" e "terapia é frescura".

Se você digitar as palavras "homem" e "terapia" no Google vai ver que um dos tópicos mais procurados sobre o tema é a pergunta: "como convencer um homem a fazer terapia?" Poderia ser engraçado, se não fosse trágico e um risco a saúde deles e nossa.

Egoísmo sociopata?

No caso das Olimpíadas, a atitude de Biles fez com que muitos atletas debatessem saúde mental e Simone recebeu apoio no mundo todo. Mas a atitude da ginasta também serviu para mostrar como o negacionismo de saúde mental funciona e quanta desinformação e preconceito existe sobre o tema (a maioria das críticas, para surpresa de ninguém, veio de homens).

O ativista conservador Charlie Kirk, por exemplo, disse que a atitude de Biles demonstrou que ela tem um "egoísmo sociopata" e que as novas gerações eram "fracas".

Confundir depressão e ansiedade com fraqueza é um clássico do negacionismo da saúde mental. E a sociopatia não é saber parar quando a gente não aguenta mais. O distúrbio, que na verdade é chamado de personalidade Antissocial, tem como um dos sintomas a incapacidade de demonstrar empatia. Ou seja, o tal comentarista se aproxima mais desse tipo de personalidade do que alguém que desiste de uma competição e fala abertamente sobre seus sentimentos.

O jornalista britânico Piers Morgan escancarou outra ignorância. Segundo ele, a saúde mental prejudicada poderia ser desculpa para quem tinha feito uma "apresentação ruim".

Essas "fake news" são exatamente o que pessoas que precisam se ausentar do trabalho ou simplesmente não conseguem levantar da cama porque estão com depressão ouvem todos os dias. "Isso é desculpa para não cumprir suas obrigações". "Isso é fraqueza". Não é. Nunca foi. É doença.

Se você se encaixar nesses casos, procure um médico ou um psicólogo. E, se você for um homem que acha que saúde mental é frescura, mas anda quebrando coisas por aí... procure também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL