PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tristeza fez Tatá e Luisa Mell perderem peso: por que 'magra' é elogio?

Luisa Mell afirmou está hospedada spa vegano para recuperar saúde - Reprodução/Instagram
Luisa Mell afirmou está hospedada spa vegano para recuperar saúde Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

22/07/2021 04h00

Vivemos em uma sociedade que ama tanto a magreza e odeia tanto a gordura, que estar muito magra, na maioria das vezes, é visto como um capricho ou um elogio..

Não é assim. Para muitas pessoas, emagrecer está diretamente ligado a ansiedade, a depressão ou tristeza. Sei porque sou dessas. Em alguns momentos da vida, já pesei menos de 45 quilos. E isso nunca foi uma opção. Quem tem essa tendência simplesmente perde o apetite quando está triste ou ansiosa.

Nos últimos dias, duas famosas vieram a público explicar que sofrem com isso: a ativista e influenciadora Luisa Mell e a atriz Tatá Werneck disseram que são dessas. Quando estão tristes, emagrecem. E não, isso não é bom! Se a gente emagrecer demais, a gente fica doente. É sério.

Luisa Mell, que, segundo rumores, passa por um processo de separação de um casamento que seria extremamente abusivo, usou o Instagram para explicar porque está pesando menos de 50 quilos.

"Eu estou muito, muito magra. Estou pesando 47 quilos. Eu acabei de me pesar e tomei um susto", disse. "Sei que tem gente que engorda quando está triste, mas tem gente que emagrece, que é meu caso... É muito ruim, difícil."

Sim. É difícil mesmo. E, nesses casos, a gente não engorda fácil. Olhar para a comida e não sentir vontade de comer é um sentimento horrível.

Semana passada, foi a vez de Tatá Werneck ter que dar uma explicação parecida. Ela explicou para seguidores no Instagram que tinha emagrecido muito após a morte do seu grande amigo Paulo Gustavo. Nos Stories, comemorava o fato de ter ganhado alguns quilos.

Entendo completamente. O que é difícil de entender é que as pessoas achem que podem tecer comentários sobre corpos de mulheres em redes sociais sem a menor cerimônia e sem serem convidadas a fazer isso. Alguém te perguntou? Não, então, não é da sua conta.

No caso de quando estamos muito magras, as sugestões para que a gente engorde são dadas sem nenhum pudor, como se não fosse nos incomodar e como se a gente pudesse ganhar peso na hora que quisesse.

A intromissão pode ser bem agressiva. No caso de Tatá, ela abriu uma caixa de perguntas no Instagram e recebeu a seguinte pergunta: "Tá muito magra, heim? Tem que ganhar umas gordurinhas."

Quem fez a pergunta, além de ser mal-educado e intrometido, ignorou o fato de que as pessoas nem sempre emagrecem porque querem. E, se a gente já está tentando engordar e não conseguindo, o que não queremos é escutar esse tipo de pressão.

Existe também um outro tipo de pessoa, aquelas que acham que quando mulheres emagrecem muito estão mais lindas do que nunca. Mesmo se elas estiverem doentes.

Tata passou por isso:"Eu estava magra porque estava deprimida. Não era saudável. É muito doido pensar que alguém vê uma pessoa magra, que está deprimida e fala: "está ótimo". Estar ótimo é estar saudável", disse.

Sim. Parem de achar que a magreza é sinal de saúde e felicidade. Não é.

Agora, os "fiscalizadores do corpo alheio" podiam dar um tempo. Nossos corpos não são de domínio público, ou algo casual sobre o qual todos possam opinar. Já não basta a vida ser difícil o suficiente para que a gente às vezes fique tão triste que não consegue comer?

Se você estiver sem conseguir comer e angustiada demais, procure um médico. E se ver alguém emagrecendo rapidamente investigue se ela precisa de ajuda. Julgamento certamente ela não precisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL