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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tradição do balé sexista do Faustão podia ter fim com saída do apresentador

"Tradição" que precisa acabar: mulheres dançando na TV com roupas mínimas atrás de homens que falam ao microfone. - Reprodução / Internet
'Tradição" que precisa acabar: mulheres dançando na TV com roupas mínimas atrás de homens que falam ao microfone. Imagem: Reprodução / Internet
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

21/06/2021 12h38

Essa semana, muita gente ficou chocada com o anúncio da demissão do apresentador Fausto Silva da TV Globo. O fim do programa que ele apresentava, "O Domingão do Faustão", é visto por muitos como o fim de uma era, de uma tradição. Não deixa de ser verdade, já que o programa ficou no ar por mais de 30 anos. Junto da saída de Faustão da Globo, outra "instituição" deve acabar: as mulheres dançarinas de palco, conhecidas como "Bailarinas do Faustão".

Com todo respeito às moças (as colunas de TV dizem que elas devem ser demitidas, o que é péssimo) esse tipo de "tradição" da TV, se acabar, já vai tarde. E espero que a Globo aproveite o momento para enterrar essa instituição datada que são a de mulheres dançando na TV com roupas mínimas atrás de homens que falam ao microfone.

Sei que muitos vão dizer: "ah, mas é tradicional", "ah, mas eu tenho apego". Oras, não é porque é uma tradição que não deva acabar, certo? Fazer piadas rindo de negros, gays, mulheres e deficientes, por exemplo, também era tradição na TV. E quando o programa do Faustão surgiu, em 1989, os pais achavam que não tinha problema fumar dentro do carro com crianças dentro, sem cinto de segurança. Algumas coisas, com o tempo, a gente percebe que não fazem sentido ou são danosas. O nome disso é evolução.

Me diga: faz sentido em 2021, quando mulheres ocupam cada vez mais posições de destaque e querem ser ouvidas tanto quanto os homens, que seja comum na TV o formato onde homens (esses inteligentes) falam enquanto mulheres rebolam em segundo plano? Nada contra o rebolado, mas tudo contra esse ser o único papel que sobre para mulheres em muitas situações.

De novo, todo respeito ao trabalho das moças, todo trabalho é válido e digno quando é honesto. Mas esteticamente, ainda mais em época de pandemia, esse formato ficou totalmente datado. As bailarinas dançando coreografias muito trabalhadas usando máscara nos últimos tempos deram o tom do surrealismo final à instituição "dançarinas de auditório".

Pressão estética

Ter um grupo de dançarinas não é privilégio da Globo, claro. As outras TVs também têm seus corpos de baile. Ser Bailarina do Faustão, ou do Faro, ou do Ratinho nunca foi um trabalho fácil. São horas treinando coreografias, cobranças e competição. E, pelo jeito, um ambiente de alta pressão estética, onde mulheres são descartadas quando engordam ou envelhecem.

Em maio, duas bailarinas do corpo de baile do SBT, que participavam do programa do Ratinho, Vitoria Carvalho e Camila Galindo, denunciaram que foram demitidas por terem engordado. Existem também vários casos de bailarinas do Faustão que dizem que foram demitidas porque envelheceram. E envelhecer, nesse caso, é ter um pouco mais que trinta anos. Ou seja, o apresentador engorda e envelhece em paz, enquanto as mulheres são demitidas por esses motivos.

Tomara que o novo programa do domingo da Globo, que será comandado por Luciano Huck, não insista nesse formato. Mas, bem, Huck foi um dos responsáveis por um dos fenômenos mais bizarros de mulheres em programas de TV. Em seu programa na Band, exibido entre 96 e 2002, personagens como a Tiazinha e a Feiticeira participavam do show seminuas, onde seus papéis eram, por exemplo, se esfregar em adolescentes que participavam do programa. Tomara que essa ideia não volte...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL