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Nina Lemos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Victoria's Secret troca "angels" por ativistas empoderadas. Vai colar?

Victoria"s Secret anuncia "morte" das angels. Megan Rapinoe e Priyanka Chopra são novas caras da marca - Getty Images
Victoria's Secret anuncia "morte" das angels. Megan Rapinoe e Priyanka Chopra são novas caras da marca Imagem: Getty Images
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

18/06/2021 04h00

"Angel", esse era o nome dado às modelos da grife de lingerie Victoria's Secret até poucos anos atrás. Ser uma "Angel" não era para qualquer uma. Era preciso ser deslumbrante, totalmente dentro do padrão, magra, mas com peitão e, de preferência, top model. As "angels" eram as mulheres sexies que povoavam os sonhos dos homens, aqueles sonhos bem clichês, com mulheres angelicais, como diz o nome, mas ao mesmo tempo sexies, vestidas de calcinha e sutiã provocantes.

Datado, né? Completamente. E por isso mesmo, a grife avisou ontem que as "angels" estão "mortas". E que vai mudar de estratégia. No lugar de seu time de "Angels", que já incluiu modelos como Alessandra Ambrósio e Gisele Bündchen, a marca vai investir em mulheres empoderadas, fortes e ativistas. Entre as novas representantes estão a atriz e empreendedora indiana Priyanka Chopra Jonas e a maravilhosa jogadora de futebol Megan Rapinoe, que é lésbica e ativista pela igualdade de gêneros.

A ideia da marca parece ser se afastar completamente do estereótipo de "feminilidade tóxica". Já que Victoria's Secret sempre representou aquele clichê "rosa" da feminilidade, com mulheres vestidas em renda, com curvas e cabelos longos. Nos últimos anos, a marca vinha sido duramente criticada por isso.

A mudança de estratégia é uma tentativa da marca de continuar relevante. Praticamente uma luta pela sobrevivência. Afinal, as consumidoras de hoje não compram mais lingerie para "agradar homem" nem sonham em parecer angelicais. Isso é ótimo, claro, afinal, avançamos. A marca que não se adaptar aos tempos atuais corre o risco de ficar esquecida ou virar uma memória de "tempos antigos", praticamente uma piada.

Essa não é a primeira marca, nem vai ser a única a tentar se reposicionar no mercado abraçando o feminismo, mas talvez seja a que muda de lado mais radicalmente. Segundo Martin Waters, CEO da marca, as tais "angels" "não são mais culturalmente relevantes." Será que foram algum dia?

Ele disse também que a marca quer ser uma das maiores representantes do empoderamento feminino entre todas as outras marcas. Bacana. Mas será que isso vai colar?

As mulheres que mais rejeitam a feminilidade tóxica da marca não têm memória curta. E talvez eles queiram começar a conquistar a geração Z, aquela que tem como uma das representantes Greta Thunberg, a ativista.

Muitas das meninas dessa geração amam moda, mas não parecem nem um pouco interessadas em posar de objeto sexual. Sim, as moças de hoje posam de lingerie no Instagram, pedem biscoito e fazem o que bem querem. Mas nada disso está relacionado com ser uma fantasia perfeita para os homens.

O fim das "angels" é um ótimo sinal. Estamos mais espertas e aceitando menos ideais de magreza e sensualidade impossíveis. É ótimo também que as marcas mudem e se adequem aos tempos atuais.

Agora resta ver se, no caso de uma marca tão atrelada a mulheres "perfeitas", isso vai colar...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL