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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como Larissa Manoela, mocinhas de antigamente também não levavam fora

Larissa Manoela - Reprodução/Instagram
Larissa Manoela Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

02/06/2021 04h00

Há muito tempo, quando eu era adolescente, paquera funcionava assim: quando a gente estava a fim de um cara, a gente dava um jeito de fazer ele saber. Isso, em geral, significava ficar olhando para ele nas festas. Se ele quisesse, chegava na gente e, quando queríamos, aceitávamos o beijo ou o convite para sair. Não, não tinha celular, nem rede social. Então, o "ficar olhando" era parecido com o "curtir foto", um jeito sutil de mostrar interesse.

Chegar em um cara? Nunca. Assim, não mostrávamos que queríamos, algo que não era do departamento das meninas (que sempre foram "criadas para esperar) e também não levávamos um fora.

A minha geração de mulheres cresceu nesse modelo. Então, muitas de nós continuam agindo do mesmo jeito e dando no máximo um "sim" no Tinder. Se o cara se interessar, ele que fale com a gente.

Achava que isso era um problema de geração e que hoje, com o feminismo cada vez mais popular, a igualdade na hora da paquera era maior. Pelo jeito, não. "Eu nunca levei um fora de um gato", disse Larissa Manoela, de 20 anos. Como ela, muitas meninas (e até mulheres que não são mais tão meninas assim) se orgulham desse feito. Bem, se nunca foram rejeitadas provavelmente é porque esperaram os homens chegarem elas, ou seja, não tomaram a iniciativa, bem no modelo mocinha de antigamente.

É normal que uma menina jovem e bonita como Larissa nunca tenha levado um fora. Mas é difícil que um menino gato da mesma idade nunca tenha sido rejeitado. Isso porque, na maioria das vezes, eles que chegam. É simples assim.

Muitas de nós, mulheres, independente da idade, ainda esperam como donzelas do século 19 do seriado" Bridgerton".

Não sou só eu que estou falando. Pesquisa realizada pelo aplicativo de relacionamento OK Cupid em 2018 mostrou que os homens mandam mais mensagens pela primeira vez do que as mulheres. Eles enviam uma média de 9 a 15 primeiras mensagens . Entre as mulheres, o número caía para entre três ou quatro.

E, claro, se você não "chegar" em ninguém é possível que você, de fato, nunca leve um fora. Essa é a única maneira segura disso não acontecer.

Levar um fora é ruim? Com certeza. Mas está muito longe de ser o fim do mundo. Faz parte da vida. A gente aprende e sempre tem umas histórias engraçadas para contar. E, bem, é muito menos entediante do que ficar (metaforicamente falando) sentada naquela mesa dos bailes de Bridgerton esperando um homem chegar para "te cortejar".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL