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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desconstruído, Caio Castro se desculpa, mas continua respeitando homofobia

Caio Castro - Reprodução/Instagram
Caio Castro Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

01/06/2021 04h00

"Eu tenho uma relação autoral com a moda. Curto acompanhar as tendências, mas gosto de usar a moda com liberdade."

A frase foi dita pelo ator e empreendedor Caio Castro, que anunciou no fim do ano passado que agora é um dos donos de uma loja on-line de moda masculina, Key Design. Ele também é sócio de uma hamburgueria e de empreendimentos de apartamentos descolados.

É o perfeito exemplo de um metrossexual, aquele homem hétero que adora moda, decoração, design. Ele é tão "fashion" que fotos da sua casa, com grafites e estilo industrial, viralizaram e viraram até nome de um estilo de casa, a "casa Caio Castro", que parece um bar em Nova York.

Tudo em Caio é cheio de modernidade. Até que ele compartilhou nas redes sociais o post de um pastor que dizia:

"Eu tenho valores, não vou abrir mão deles. Se você me perguntar se eu acho certo, eu não acho. Mas isso não nos torna inimigos"

Não acha certo?

O mesmo vídeo foi compartilhado por Rafa Kalimann, que apagou o conteúdo e se desculpou.

Depois da repercussão negativa, Caio publicou uma explicação no Instagram, na qual dizia que era a favor do casamento gay e toda forma de amor. Mas que respeitava também a opinião do pastor.

Não convenceu. Alguns comentários sobre ele no Twitter: "Tradução do que Caio Castro disse, respeitem a homofobia".

"Segundo o Caio Castro eu tenho que respeitar quem é contra a minha existência e a minha forma de amar."

Caio parece ser um representante de um tipo de homem que existe desde o início dos anos 2000, quando eu fazia com amigas, aqui mesmo no UOL, um site chamado "02 Neuronio". Na época, chamávamos esse sujeito de "o careta disfarçado de moderno". O tempo passa, a palavra careta foi substituída por "reaça". O moderno por desconstruído. Mas o comportamento pouco mudou.

O reaça disfarçado de moderno da atualidade pinta as unhas de preto, faz a barba no barbeiro e tem rotina de beleza. Mas, por trás dos móveis moderninhos e de design e do fato de saber cozinhar comida vegana, os comportamentos não são tão diferentes daqueles homens que são reaças também no jeito de se vestir e que jamais pintariam a unha de preto.

Basicamente, ele tem os mesmos valores que aquele seu primo que acha que moda é coisa de mulher. Só que eles, ao contrário do seu primo, usam coque.

Hoje em dia, cada vez mais homens usam saia, gostam de moda, fazem a barba em barbearias caras e cuidam do cabelo. Isso é ótimo, claro! Que bom que os homens se sentem mais livres para gostar de moda, testar cortes de cabelos novos e cuidar da decoração da casa. O único "senão" é que muitas vezes toda essa embalagem faz com que a gente ache que eles são super desconstruídos. E não, eles não são. Como diria uma música da Legião Urbana muito antiga, escrita nos anos 80, "a sua roupa nova é só uma roupa nova". Ou seja, pelo jeito, esse tipo hoje é mais bem vestido, mas já existe há quarenta anos. De moderno? Não tem nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL