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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Claudia Leitte: ser só gratiluz no Brasil de 2021 é desrespeitar o público

Claudia Leitte (Foto: Reprodução/TV Globo) - Reprodução / Internet
Claudia Leitte (Foto: Reprodução/TV Globo) Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

24/05/2021 13h11

Na manhã desta segunda-feira, a apresentadora Xuxa era um dos assuntos mais comentados do Twitter. Motivo: segundo publicado na coluna de Mônica Bergamo, ela teria assinado, junto com outras celebridades, um abaixo-assinado pedindo o impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Uma das mulheres mais famosas do Brasil, ela é uma das muitas celebridades que já perceberam o óbvio: não dá para ficar calado em 2021, quando quase 450 mil pessoas já morreram de coronavírus no Brasil, 14,5 milhões de famílias estão vivendo na miséria e o país tem atrasos nos calendários de vacina. Quem consegue não sentir revolta?

Pelo jeito, quem consegue passar por tudo isso sem se revoltar e ainda sentindo alguma gratidão é a cantora Claudia Leitte. No sábado, ela participou do programa de Serginho Groisman junto com o padre Júlio Lancellotti (um dos homens mais indignados do Brasil, no melhor sentido), Ana Maria Braga e Deborah Secco. Ao ser perguntada sobre o que a indigna no momento, a cantora respondeu:

"A minha indignação? Eu tenho um coração pacificador. Eu me indigno, sou capaz de virar tudo pelo avesso, de chutar as barracas, mas acho que todo mundo tem um lugar onde pode brilhar uma luz para desfazer o que está acontecendo e se essa luz se acende, obviamente, não vai ter escuridão."

Como, Claudia?

A cantora foi duramente criticada por sua falta de indignação e seu discurso "gratiluz" e acabou levando uma indireta ao vivo da atriz Deborah Secco, que visivelmente indignada, respondeu: "O que me indigna é a gente normalizar as piores coisas e seguir adiante como se estivesse tudo bem, que é isso mesmo. Não é isso mesmo, isso não pode continuar, as coisas têm que mudar".

Com Ana Maria Braga, Deborah fez um discurso poderoso e importante sobre o descaso e a falta das vacinas. Quem saiu mal da história? Ela, Claudia Leitte, aquela que nunca se posiciona e que parece querer agradar a todos. Pode ter dado para ser artista sem se posicionar até agora. Mas não dá mais.

Se indignar, no momento, não é "tomar um lado", mas uma maneira de mostrar empatia às milhares de pessoas que perderam parentes e amigos para o coronavírus.

Depois da morte de Paulo Gustavo, muitos dos seus amigos (Deborah Secco era uma delas) têm usado as redes sociais para pedir vacinas para todos. Atrizes como Mônica Martelli e Samantha Schmütz lamentam a falta de vacinas e cobram do governo. Samantha tem feito postagens potentes nas redes sociais, criticando inclusive colegas que, como Claudia, não se posicionam: "Não adianta a gente usar a nossa voz para fazer dancinha de TikTok. Eu não sei se dá para fazer revolução por aqui, mas é a maneira que a gente tem de se comunicar, mostrar o que está pensando em um momento de tanta indignação".

Pois é, Claudia Leitte, não dá para ficar dançando e sendo gratiluz no meio do apocalipse, como se nada estivesse acontecendo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL