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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que mulheres jovens como Sasha adotam o sobrenome do marido?

Recém-casada, Sasha Meneghel ganha declaração de amor do marido, João Figueiredo: "Ela me faz amar viver" - Reprodução/Instagram
Recém-casada, Sasha Meneghel ganha declaração de amor do marido, João Figueiredo: "Ela me faz amar viver" Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

17/05/2021 11h30Atualizada em 19/05/2021 22h26

No fim de semana, a modelo e estilista Sasha, 22, surpreendeu a todos ao avisar que tinha se casado com o músico João Figueiredo. De vestido esportivo e tênis All Star, a filha de Xuxa inovou nos trajes, mas manteve uma tradição antiga. Orgulhosa, ela avisou nas redes sociais seu novo nome: Sasha Meneghel Szafir Figueiredo.

Assim como muitas mulheres jovens, Sasha fez questão de adotar o nome do marido, uma tradição antiga, que não tem nada a ver com os dias de hoje, já que não combina com a independência feminina e o feminismo de que todos falam hoje em dia.

Afinal, como assim virar a senhora fulano? Não é praticamente virar a senhora "do fulano?". Sim, essa tradição é machista. Quer um exemplo? Até 1962, um tempo histórico minúsculo, a gente nem tinha opção de manter o nome com o qual nascemos depois de casar. Adotar o nome do marido era obrigatório por lei. Já pensou?

Seria natural que as mulheres que se casaram depois disso jogassem essa tradição no lixo. No caso da minha geração, fizemos isso. Na verdade, até casar nunca foi um sonho para a gente. Se casamos, foi em geral por uma razão prática, ou por vontade de dar uma festa. Mas raramente no modelo casamento, lua de mel etc . Entre mim e minhas amigas, adotar o nome do marido pegaria até mal. Claro, falo isso da minha bolha e não de todas as mulheres. A maioria continuou a mudar seus nomes simplesmente porque isso era o esperado, o que todo mundo fazia. E tudo bem. Cada um faz o que quer.

Mas não deixa de ser uma surpresa ver mulheres independentes, modernas, adotando essa norma em 2021. E não são só as novas, que por um ideal romântico, adotam o nome do "conje". Também na semana passada, a modelo Viviane Araújo, de 46 anos, se casou e avisou orgulhosa que tinha adotado o nome do marido, o empresário Guilherme Militão. Em abril foi a vez de Yasmin Brunet, 32, se casar com o surfista Gabriel Medina e acrescentar o Medina ao seu nome.

É claro, repito, que cada um faz o que quer. Se uma mulher tem vontade de adotar o nome do marido? Que adote! Mas, sinceramente, esse não seria o conselho que eu daria para uma amiga. E não é só por razões "militantes". Mas por um motivo mais prático. Já pensou ter que trocar todos os documentos? Deus me livre. Fora que tem um "detalhe": se você se divorciar (desculpa a quem está apaixonado e prestes a se casar, louca para adotar o nome do marido e usar aliança): você vai ter que trocar todos os seus documentos de novo, além de todos os problemas de um divórcio, inclusive os burocráticos.

Eu consigo entender que esse seja um desejo romântico, algo que se faça apaixonada. Do tipo: te amo tanto que quero ter o seu nome. Se for o caso, acho que não custa pedir que o noivo mude o nome também. Sim, isso é permitido por lei desde a alteração do Código Civil em 2002. É bizarro que isso seja uma conquista tão recente...

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, na vigência do CC/1916 e até o advento do Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/62), o acréscimo do sobrenome do marido era obrigatório para a mulher. Depois de 1962, tornou-se facultativo, mas ainda prerrogativa exclusiva da mulher.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL