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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Damares apaga nota lamentando mortes no Jacarezinho. E a defesa à vida?

Ministério de Damares apaga a nota em que lamentava as mortes no Jacarezinho (RJ) - Reprodução/Flickr Palácio do Planalto
Ministério de Damares apaga a nota em que lamentava as mortes no Jacarezinho (RJ) Imagem: Reprodução/Flickr Palácio do Planalto
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

11/05/2021 04h00

Semana passada, um dia depois de 28 pessoas terem sido assassinadas em uma operação policial na favela do Jacarezinho, a ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos Damares Alves teve uma atitude rara: ela agiu como ministra dos Direitos Humanos. Isso porque ela lamentou oficialmente as mortes em nota oficial. Ontem, o ministério de Damares apagou o post e deletou a nota do site.

A nota do ministério não era nem um pouco "do pessoal do direitos humanos", como dizem os radicais, se referindo a quem é contra as execuções pela polícia. Mesmo assim, era equilibrada para um ministério que já tentou impedir uma menina de dez anos vítima de um estupro a fazer um aborto a que ela tinha direito por lei.

A nota dizia: "O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos lamenta as mortes ocorridas em operação policial na comunidade do Jacarezinho. É urgente a necessidade de combate ao crime organizado, ao tráfico de drogas e às demais atividades marginais que ocorrem na cidade. Entendemos, também, que essas devem ocorrer de forma a proteger a vida de todos, especialmente dos moradores que, também, são vítimas e reféns de atividades criminosas."

Repito, parece até uma nota de um Ministério de Direitos Humanos de verdade. E deve ser por isso mesmo que a nota foi apagada, já que as reações do governo foram de parabenizar a polícia. Sim. No Twitter, o presidente Jair Bolsonaro escreveu que a Polícia Civil do Rio de Janeiro estava de parabéns e que "imprensa e esquerda" tratavam como vítimas "traficantes que roubam, matam e destroem famílias." O vice-presidente general Mourão foi no mesmo tom e disse que tinha certeza de que os mortos eram "todos marginais''. Lembrete: não há provas disso. E mesmo se fossem traficantes, não existe pena de morte no Brasil.

A nota de Damares pegou mal entre os apoiadores radicais do governo nas redes sociais, onde ela foi atacada. Deve ter levado uma bronca. E voltou atrás. Resultado: a Ministra, que fala tanto que defende a vida, acabou não condenando essa matança toda.

Damares diz defender também as crianças e as mães. Uma das mortes ocorreu no quarto de uma menina de 9 anos, que vai ficar traumatizada para sempre. Se a criança morar na favela ela pode passar por isso, Ministra? Ela não merece ser protegida? A operação aconteceu durante o dia, enquanto as crianças brincavam.

Os mortos no massacre têm famílias, claro, e mães. Há relatos de que, um dia depois do massacre, muitas delas ainda vagavam pela comunidade em busca de seus filhos. E aí, Damares? Não valia enfrentar a bronca que deve ter vindo do chefe? Ou o Ministério dos Direitos Humanos vai assumir de uma vez por todas que não tem nenhum compromisso com... os direitos humanos mais básicos?

Ah, internacionalmente, o massacre foi tratado como o que é: um escândalo. O porta-voz dos Direitos Humanos na ONU, Rupert Colville, se disse preocupado com o caso e pediu uma investigação independente sobre a operação. "A força letal deve ser usada como último recurso", disse. Instituições como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch Brasil também lamentaram as mortes.

Pelo jeito, Damares ficou com medo de ser confundida com algumas pessoas dessas entidades, ou seja, com alguém que realmente defende, de verdade, os direitos humanos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL