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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tatá Werneck deixa Twitter após críticas. Atacar quem vive luto é cruel

Tatá Werneck diz que se afastará do Twitter por um tempo após ser criticada por se proteger da Covid-19 - Reprodução / Internet
Tatá Werneck diz que se afastará do Twitter por um tempo após ser criticada por se proteger da Covid-19 Imagem: Reprodução / Internet
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

10/05/2021 16h14

Quem já perdeu um amigo sabe o quanto é difícil e terrível lidar com essa perda. Em tempos de isolamento, pior ainda, já que não podemos encontrar os outros pessoalmente, abraçar, espairecer. A atriz Tatá Werneck, super amiga do humorista Paulo Gustavo, é uma das milhares de pessoas (são mais de 420 mil mortos no país, e eles tinham amigos) a passarem por isso no momento.

Durante todo o período em que Paulo Gustavo esteve internado, Tatá, isolada em casa com a família, aproveitou as redes sociais para falar sobre o amigo e pedir orações para ele. Tenho certeza que isso a consolou e a ajudou a enfrentar esses dias de aflição e desespero. Na quinta-feira, Tatá foi à cerimônia de cremação do amigo. Colocou duas máscaras e um face shield. Imaginem o medo que ela sentia, junto com a dor? Seu melhor amigo, que tem filhos pequenos como sua filha, morreu de um vírus que passa pelo ar. Ou seja, Tata estava certíssima. E mesmo se não estivesse. Nada está errado nessa hora.Mas o que aconteceu? Ela foi detonada nas redes sociais, chamada de louca, exagerada. Teve até quem dissesse que ela "estava querendo aparecer".

Achar que uma pessoa pode querer "aparecer" no funeral de um amigo é tão ignorante e absurdo que, bem, quem escreveu isso não deve ter amigos. Resultado: no fim de semana, Tatá anunciou que daria um tempo do Twitter.

Tatá está certa de sair das redes sociais para não ter que apanhar no momento em que está mais machucada (e sem ter feito nada de errado). Mas o pior é que, graças a essas pessoas que resolveram criticar a forma como alguém foi ao velório de um grande amigo, Tata ficou sem o apoio e a companhia das redes sociais. Em luto em tempos de isolamento, as redes podem ajudar. E muito.

Falo porque já passei por situação parecida. Anos atrás, meu melhor amigo morreu de um ataque cardíaco fulminante no Brasil. Eu estava na Alemanha e nem pude ir ao velório, enterro, missa, nada. Naqueles dias horríveis, as redes sociais me ajudaram. E muito.

Como não podia encontrar pessoalmente os amigos em comum, a gente compartilhou lembranças e tristeza nas redes. Fui consolada virtualmente por várias pessoas. Ajudou. Tanto que lembro-me disso, no meio daqueles dias que foram tão traumáticos que eu apaguei quase tudo da memória.

Tata não tem mais esse consolo. Já pensou?

O caso dela deve servir ao menos de alerta de onde a crueldade pode chegar. Não é possível que no meio de uma pandemia, com milhares de mortos, as pessoas não percebam a crueldade que é atacar alguém no dia do velório de um amigo. E se nem a pandemia vai ensinar, o que vai?

Fica o lembrete. Não faça piadas com pessoas enlutadas. Não ria delas. As trate com carinho nas redes sociais, seja alguém que você conhece pessoalmente ou não. E, claro, não seja "fiscal" de luto. Cada um vive o luto da maneira que pode. Já está difícil demais. A gente só precisa acolher. E respeitar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL