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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gay, pai de família e amado no Brasil: Paulo Gustavo foi sopro de otimismo

Paulo Gustavo com o marido, Thales, e os filhos, Gael e Romeu - Foto: Arquivo pessoal
Paulo Gustavo com o marido, Thales, e os filhos, Gael e Romeu Imagem: Foto: Arquivo pessoal
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

05/05/2021 15h00Atualizada em 06/05/2021 09h24

No meio dessa madrugada, quando acordei e fui checar notícias sobre o ator Paulo Gustavo, um dos assuntos mais comentados do Twitter era "Thales". Tratava-se do médico Thales Bretas, marido do ator e humorista. Os dois eram casados desde 2015 e tiveram dois filhos, Romeu e Gael.

Nas mensagens, milhares de pessoas mandavam apoio para o médico. Diziam que ele era um cara incrível e que precisaria de muita força, já que ficaria viúvo com dois filhos pequenos. Os fãs de Paulo reconheciam a dedicação do médico ao marido durante sua doença e mandavam uma onda de solidariedade para ele.

No meio de tanta tristeza, é incrível ver que, em um país governado por um presidente abertamente homofóbico, que já disse que preferiria ter um filho morto a ter um filho gay, o fato de Paulo ser homossexual assumido e muito bem casado era e é tratado com tanta naturalidade e amor. "Paulo Gustavo gigante até a morte. Fazendo a palavra MARIDO ser usada na TV aberta e horário nobre, em um relacionamento entre dois homens. Quem tem companheiro é o Lula. O cara era marido com todas as letras.", escreveu o músico Caiuscio no Twitter.

Verdade. Paulo Gustavo continua quebrando tabus. E se sua família recebe toda essa solidariedade e aceitação, isso é graças ao próprio Paulo, o sujeito que colocou milhares de pessoas no cinema para ver a série de filmes "Minha mãe é uma peça", onde a mãe, dona Hermínia, tem três filhos, e um deles, gay, assim como Paulo na vida real, se casa no terceiro filme da série.

"Minha mãe é uma Peça 3" se tornou o filme com maior arrecadação da história do cinema nacional e foi visto por quase 9 milhões de pessoas. A família brasileira acompanhou a aceitação da mãe ao filho gay em todos os seus passos. E a mãe era interpretada por um ator gay, vestido de mulher.

Na vida real, o ator também foi exemplo. A família construída por Paulo e Thales era e é notícia em programas de TV matutinos e revistas de celebridades, onde é admirada. E Paulo, o mesmo cara que vivia vestido de mulher e adorava uma peruca, fazia propaganda de amaciante e geladeira e era amado por todas as mães, avós e tias Brasil afora.

Se ele faz tanto sucesso com as famílias, deve ser porque, além de ser tão talentoso, Paulo representava uma família do Brasil como ninguém.

Ele mostrou, em sua vida privada e carreira, o que é a a verdadeira família tradicional brasileira: aquela que pode ser formada, sim, por dois homens (ou duas mulheres), ter uma mãe engraçada como a dona Hermínia (todas famílias têm uma) e conseguir se entender, mesmo que no meio de brigas, e tantas diferenças.

Essa é a verdadeira família tradicional. E Paulo foi um verdadeiro pai de família. Deve ser por isso que todas as donas Hermínias do Brasil estão de luto.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi publicado, Bolsonaro já disse que preferiria ter um filho morto a um filho gay. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL