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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Até quando Karol Conká vai ter que se desculpar e chorar por erros no BBB?

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

28/04/2021 14h37

A rapper Karol Conká errou várias vezes dentro do BBB, onde teve um comportamento agressivo, com direito a bullying praticado por ela contra outros participantes. Dito isso. Ela saiu, chorou e se desculpou. Deveria ser o fim, não? O que podemos fazer quando pisamos pesado na bola além de pedir desculpas e procurar uma maneira de tentar não repetir os erros? Nada.

Mas, no caso de Karol pelo jeito, ela está fadada a chorar e se desculpar ainda por um longo tempo. Estreia amanhã (29) no Globoplay o documentário "Karol Conká, a vida depois do tombo". Pelo que vimos no trailer e em reportagem exibida no "Fantástico", Karol chora muito no filme. Em um dos momentos, ela é convidada a ver cenas em que foi abusiva no reality sozinha em uma sala com telões.

Assistir seus erros transmitidos em um telão parece um pesadelo e quase uma tortura psicológica. Nunca nenhum BBB passou por isso ou teve que pedir tantas desculpas.

A lista dos participantes do programa que teve comportamento péssimo dentro da casa é gigante. Alguns deles se desculparam. Outros, nem isso. Ficou por isso mesmo e alguns alcançaram muita popularidade. Entre eles, estão os homens que foram abusivos com mulheres, quase uma categoria de "personagens" do BBB.

Um dos mais explicitamente abusivos foi o médico Marcos Härter, expulso depois de encostar a namorada Emily na parede enquanto gritava com ela. O médico não precisou ver a cena da agressão em um telão nem passou meses chorando e pedindo desculpa. Pelo contrário, ele ganhou outra chance. No mesmo ano em que foi expulso do BBB, ele participou de A Fazenda, e ficou em segundo lugar.

Ano passado, foi a vez de Guilherme ter comportamento abusivo com a namorada da casa, Gabriela. Ele, junto com outros participantes, criou também um plano para seduzir as meninas e tirá-las da casa. Claro que esse plano absurdo e machista deu errado. Mas ele foi perdoado depois de pedidos discretos de desculpas sem lágrimas.

E na edição desse ano? Só Karol errou? Já esquecemos Nego Di e Projota, que deram show de machismo e eram também os reis do bullying? A carreira de Projota vai continuar. Por que com a Karol não foi igual? Uma mulher que erra não pode simplesmente seguir em frente?

Sadismo

O que Karol tem de diferente de todos os outros abusadores que já passaram pelo programa? Ela foi péssima? Foi. Mas não é no mínimo estranho que o choro de uma mulher negra pedindo desculpa seja algo que faça sucesso em 2021 e que nenhum outro participante tenha que fazer o mesmo?

Devemos ser muito sádicos mesmo para gostar tanto de ver uma pessoa sofrer tanto pelos seus erros. Prova disso é que Karol é campeã de audiência. O ódio a ela uniu o país. O paredão de sua eliminação teve 38 pontos e superou as finais das últimas dez edições do programa.

A cantora também aumentou a audiência dos programas de que participou na saída do BBB. Inspirada pelo nosso sadismo, a Globo, que não é boba, se prepara para faturar mais ainda. O documentário deve dar muita audiência. Se continuar assim, ela vai ter que pedir perdão de novo daqui a um ano.

Tomara que um dia a romaria de Karol em busca de perdão acabe e ela possa seguir a sua vida. Assim como acontece com todo mundo que já errou no programa. É um direito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL