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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BBB 21: Permanência de Arthur mostra o quanto se passa pano para machismo

Arthur no BBB 21 (Reprodução Twitter) - Reprodução / Internet
Arthur no BBB 21 (Reprodução Twitter) Imagem: Reprodução / Internet
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

23/04/2021 04h00

Desde o início do BBB 21, o professor de crossfit Arthur é um dos homens que mais demonstra masculinidade tóxica no programa. O crossfiteiro já foi tóxico com a atriz Carla Diaz, com quem viveu um romance na casa. Reproduziu comportamento machista junto com seu mano Projota e passou boa parte do programa admirando seus próprios músculos no espelho e falando, quando frustrado, que ia "quebrar tudo".

Apesar dessas atitudes e da masculinidade tóxica, ele continua no programa. A punição para Arthur não chega.

A tolerância não é a mesma com os outros participantes. A namorada com quem ele teve um comportamento abusivo saiu. Afinal, mulher não pode errar, e se sofrer porque se apaixonou por um homem que a trata mal, acaba sendo punida "para deixar de ser trouxa".

Vários participantes saíram por motivos fúteis. Arthur continua no programa.

Na eliminação de ontem, a disputa sobre a rejeição nem o atingiu. Os votos foram em cima de João, um professor negro e gay que confrontou outro participante (Rodolffo) por racismo e protagonizou um momento histórico no BBB. Mas ele não é perfeito (e ninguém é) por isso, ganhou grande rejeição por ser amigo de de participantes com alta rejeição, como Viih Tube e por não se posicionar em vários momentos.

Há quem fale também (com razão) que parte da rejeição ao professor se deve ao racismo.

A cantora Pocah também recebeu muitos votos. Os fãs do programa não esquecem a maneira como ela tratou Lucas (que pediu para sair do programa depois de sofrer bullying) e o fato de ela ter sido amiga do chamado "Gabinete do Ódio do BBB", que tinha Nego Di e Karol como líderes). Detalhe: Arthur também era amigo dessas pessoas. Ele inclusive sempre favoreceu muito mais seu "mano" Projota do que a própria namorada.

As atitudes machistas de Arthur, pelo jeito, já foram esquecidas por muitos fãs do programa.

Isso aconteceu também porque, depois que seus amigos Nego Di e Projota saíram, Arthur deixou boa parte das atitudes machistas de lado e virou um "macho em desconstrução". E sim, isso também acontece na vida real. Muitos caras são mais machistas quando estão perto dos "parceiros", para tentar agradar e mostrar para o grupo que são machos de verdade.

Ninguém é só uma coisa. E claro que Arthur pode melhorar e até mudar. Mas por que os outros não são tratados com a mesma paciência?

Já repararam que, nessa edição do programa, brancos dentro do padrão estão tendo mais chances de mudar do que negros e mulheres? Por que será? Bem, porque a sociedade é assim.

Sim, o BBB imita a vida. Muitas vezes na vida real o cara padrãozinho recebe muito mais chances de se reinventar do que negros e mulheres. Lumena não teve chance. Nem João. E isso não é mera coincidência: é preconceito mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL