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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Samuel Klein: acusado de abusos, milionário morre sem ser investigado

Fundador das Casas Bahia, o empresário Samuel Klein morreu em 2014 aos 91 anos.  - Janete Longo/Folhapress/Arquivo
Fundador das Casas Bahia, o empresário Samuel Klein morreu em 2014 aos 91 anos. Imagem: Janete Longo/Folhapress/Arquivo
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

15/04/2021 17h27

Denúncias de adolescentes que foram estupradas. Meninas menores de idade em situação vulnerável sendo exploradas sexualmente em troca de dinheiro e presentes. Esses e outros crimes, de acordo com vítimas, teriam sido praticados por décadas por um dos mais famosos empresários brasileiros: Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, morto em 2014.

Os detalhes e acusações sobre uma rede de exploração sexual de menores que teria sido mantida pelo empresário foram publicados nesta quinta (15) em reportagem da Agência Pública. Os crimes parecem ser tradição de família. Um dos filhos de Samuel, Saul Klein, teria seguido os passos do pai. Ele é investigado pelo Ministério Público por violência sexual praticada contra 30 mulheres.

Depoimentos de mais de 35 pessoas, entre vítimas, advogados e ex-funcionários, mostram que Samuel teria praticado violência sexual contra menores de idade por pelo menos 30 anos. Os crimes teriam sido praticados na frente de muita gente — segundo as vítimas e entrevistados, o empresário levaria grupos de menores de idade para festas em seus imóveis. Vítimas afirmam ter visto mais de 40 meninas, todas menores de idade, inclusive crianças de nove anos, nas tais festas, onde o empresário escolheria quais iram para "o quarto" fazer sexo com ele.

Muitos funcionários também sabiam, já que era normal que meninas fossem pegar dinheiro e presentes nas Casas Bahia.

Se isso acontecia na frente de tanta gente, por que continuou?

Empregados denunciarem um chefe por crime sexual é difícil. Mas muitas vítimas também procuraram a Justiça quando perceberam que tinham sido vítimas de crime. Todos os processos foram arquivados. Nada aconteceu. Samuel Klein morreu impune, considerado herói do empresariado e virou nome de rua em São Caetano (SP). Enquanto isso, vidas de uma série de mulheres foram destruídas.

Jeffrey Epstein

A série de acusações de abusos e a impunidade contra Klein lembram o escândalo de Jeffrey Epstein, o milionário americano que passou a vida abusando de menores de idade. A rede de pedofilia formada por ele envolvia nomes famosos e poderosos, como os ex-presidentes americanos Bill Clinton e Donald Trump e o príncipe Andrew, do Reino Unido. A história é contada no documentário "Poder e Perversão", da Netflix. Epstein, depois de décadas de abuso, foi preso em 2019 e se matou na prisão no mesmo ano.

Para homens poderosos continuarem praticando esses crimes por tantos anos é preciso que haja conivência de todo um sistema que, convenientemente, fecha os olhos para a violência praticada contra as mulheres.

Sem essa cumplicidade, não seria possível tantos casos de abuso e por tanto tempo. Quantas pessoas se calaram? Quantos processos foram arquivados porque Samuel Klein era um homem rico e poderoso, cheio de contatos?

Um sistema que permite que crianças sejam abusadas por décadas é cúmplice no crime.

O caso de Klein deveria servir como um marco, um ponto de ruptura, para que isso não aconteça nunca mais. É muito fácil ser contra a pedofilia. Afinal, quem não é? Difícil mesmo é parar de fechar os olhos para esses crimes quando eles são cometidos por poderosos. Até quando?

Como denunciar a exploração sexual de menores

O Disque 100 registra ocorrências de crimes cometidos contra criança, adolescente, pessoa idosa ou pessoa com deficiência. Esse canal também pode ser acionado pela internet, por meio do aplicativo Proteja Brasil, com download gratuito em celulares com sistemas operacionais iOS e Android.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL