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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem reage a racismo não é vitimista, mas vítima de opressão

João Luiz sofreu com piada racista de Rodolffo no BBB 21 (Reprodução Gshow) - Reprodução / Internet
João Luiz sofreu com piada racista de Rodolffo no BBB 21 (Reprodução Gshow) Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

07/04/2021 04h00

O professor João fez história no Big Brother Brasil. Essa foi a primeira vez que um participante confrontou abertamente um colega de confinamento sobre racismo no programa. Depois de ouvir uma "piada" sobre seu cabelo do sertanejo Rodolffo, o professor conseguiu colocar tudo para fora. João disse, na cara do sertanejo, que tinha sido vítima de racismo e ainda explicou por que a piada com seu cabelo o machucava.

João foi gigante, corajoso. Mas, como parte da audiência do programa está reagindo a toda a dor sentida por ele na TV, na frente de todos? Falando que sua atitude foi "vitimismo." Essa palavra é usada para acusá-lo junto com outra muito em voga: "mimimi". "Vitimismo" ficou em primeiro lugar no Twitter durante toda a terça-feira (6), como reação à atitude de João.

Expor uma coisa dessas, tão traumática, em rede nacional, deve ser doído demais. Sou branca, não conheço o tamanho da dor de João. Mas, como muita gente, consigo tentar me colocar no lugar dele e enxergar a sua dor. Depois de confrontar o sertanejo, João, que explicou por que a tal "piada" o agredia com a voz embargada, caiu no choro, no que foi confortado pelos participantes.

Como assim vitimismo? O que significa essa palavra? Quer dizer que uma pessoa é vítima de um ataque e, quando reclama, ou sofre, ela está "sendo vitimista", "se vitimizando"? Não, gente, quem torna alguém uma vítima é quem agride. E ser vítima não tem nada de errado, não. Errado é ser o agressor.

A palavra "vitimismo" não é usada só no caso de racismo, mas em todas as outras formas de opressão. Se uma mulher, por exemplo, reclamar que ganha menos que os homens, alguns vão responder com a frase decorada: "pare de vitimismo".

O que seria parar de se vitimizar? Parar de reclamar de uma injustiça? Bem, talvez esse seja um dos objetivos de quem chama as vítimas de vitimistas: calá-las. Afinal, eles transformam todas as dores justas que as pessoas carregam por serem vítimas de injustiça em "drama", "mimimi".

Quem devia ser "culpabilizado" depois de uma atitude racista? O opressor, não? O "vitimismo é a palavra que o opressor usa para tirar a culpa que tem", diz uma amiga. É verdade. E é cruel. O vitimismo, enquanto escrevo, é chamado por usuários do Twitter de "a dor que não dói em você." Também é verdade.

Chamar a reação a agressão de vitimismo é não enxergar a dor do outro, além de querer fazer pouco dela. No final, quem acusa o agredido de vitimismo está tentando transformar coisas reais, que machucam, em "draminha".

Sofrer por ser vítima de uma agressão, ser oprimido, não tem nada de dramático ou de frescura. Pelo contrário. Não é vitimização: é dor e raiva mesmo.

No mais, os que chamam reação a opressão de mimimi e vitimização podem continuar a reclamar a vontade. Vivemos um momento em que, apesar de tudo, vítimas de opressões estão unidas e reagindo. Ninguém vai parar. Aguentem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL