PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Juliette e Viih Tube: toda mulher já teve amizade tóxica com "popular"

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

05/04/2021 15h54

Na minha escola, lá nos anos 80, havia uma menina chamada Adriana. Ela era fofa, popular, linda (no caso, loira e padrão). Ser amiga dela era uma honra. Adriana sempre andava com várias meninas em volta, que eram muito orgulhosas de serem escolhidas e faziam de tudo pela líder. Se ser amiga da Adriana já era uma honra, imagina ser melhor amiga? Era um posto e tal.

Acho que toda mulher já teve uma amiga ou conhecida assim na vida. E esses encontros, muitas vezes, não param na quinta série, pelo contrário, continuam pela vida adulta. Me lembrei da Adriana e desse tipo de amizade tóxica e cheia de jogo de poder, que em geral envolve uma garota normal e uma "popular" (aquela padrão, campeã em tudo) ao ver a relação da youtuber Viih Tube com a advogada Juliette no BBB e a dentista Thais. As três têm protagonizado no programa um triângulo amoroso de amizade, uma relação de disputas e jogos de poder.

A líder da relação é Viih Tube, amiga de Juliette e Thaís, que disputam o posto de melhor amiga da youtuber. A rejeitada da relação é Juliette, que vive jurando fidelidade a Viih Tube e sendo deixada de lado pela amiga. Sabe quando a gente fica dando em cima e fazendo de tudo por um cara que não dá muita bola para a gente? Pois Juliette vive essa relação com Viih Tube.

Roubada? Com certeza. Mas quase todo mundo já passou por uma amizade assim. Platonismo não acontece só em relações amorosas. Inclusive, as relações de amizade também têm ciúme, sentimento de posse, competição, desgaste e dependência. Faz parte.

A melhor saída, na maioria das vezes, é falar a verdade. Quem é amigo de verdade entende quando a gente fala "estou com ciúme" ou "isso me magoou". Se não entender? Nem devia ser sua amiga assim, ou a maturidade da pessoa ficou lá na quinta série.

Claro que esse tipo de amizade desigual no estilo Viih Tube e Juliette, onde uma pessoa trata os amigos como se fossem súditos, em geral, acontece mais na época de escola, já que com o tempo a gente fica menos dependente e mais vacinado contra joguinhos de poder.

O que não quer dizer, claro, que a gente se cure e fique imune a cair em uma amizade tóxica de novo.

A menina de 11 anos que existe dentro da gente renasce vez ou outra. E, quando damos conta, estamos nos sentindo um lixo porque "não fomos convidadas para sentar ao lado dela" ou "dormir no quarto do líder (troque por algo da vida adulta) e chorando desconsoladas porque "você gosta mais da fulana do que de mim" igual fazíamos na quinta série.

A diferença é que quando somos adultas, conseguimos rir disso tudo com nossas amigas. A não ser, claro, que a amiga ainda viva na quinta série. Se for esse o caso e você tiver mais de 20 anos? Fuja! Drama adolescente, depois que a gente é adulta, só é legal em seriado da Netflix.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL