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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Até Michelle Obama teve depressão na pandemia. Sim, temos direito de sofrer

Michelle Obama afirmou a revista "People" que teve depressão ano passado - Reprodução/Netflix
Michelle Obama afirmou a revista "People" que teve depressão ano passado Imagem: Reprodução/Netflix
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

15/03/2021 14h23

Michelle Obama, ex-primeira dama dos Estados Unidos, parece ser uma mulher sábia e bem resolvida, daquelas boas de dar conselhos. Nos últimos tempos, Michelle tem sido importante também por falar de questões femininas com sinceridade, sem tabus.

Pois Michelle continua nos ajudando. Em entrevista para a revista "People" deste mês ela contou que não está enfrentando o momento da pandemia com facilidade e que chegou a ter uma depressão no período.

Obrigada, Michelle. É reconfortante, em um momento tão difícil e com tanta pressão para tocar a vida como se nada tivesse acontecendo (e ainda ser produtivo e criativo!) ver uma mulher com uma vida estável e todo o pacote de uma vida bem-sucedida (advogada de sucesso, marido ex-presidente, autora de best seller, duas filhas) assumir isso.

"Tive uma depressão leve em uma época em que muitas coisas difíceis estavam acontecendo. Tivemos a continuação da matança de negros nas mãos da polícia. Só de ver o vídeo de George Floyd (assassinado pela polícia americana em maio do ano passado), vivenciando aqueles oito minutos. Isso é muito para enfrentar, sem falar em estar no meio de uma quarentena. A depressão é compreensível durante nesses momentos.", disse. Sim, claro que é.

E podemos aproveitar a fala de Michelle para lembrar também da situação de nós, brasileiros. Atualmente, cerca de 2 mil pessoas morrem diariamente no país. Tem coisa mais compreensível do que ficar mal com isso? Na verdade, esquisito é não ficar e fingir que nada está acontecendo.

Se você está vendo o noticiário e lendo as notícias, provavelmente você está sofrendo. Nossa tristeza e nossa raiva aumentam ainda mais quando vemos o presidente do país falando que precisamos "precisamos parar de mimimi". Como se o sofrimento causado pela morte de todas essas pessoas fosse "draminha" (a declaração foi feita dia 4/3, no meio de notícias de colapsos em UTIs Brasil a fora).

Tem como ficar bem? O tempo todo, impossível. Claro, não podemos parar, temos que trabalhar, cuidar da casa, da vida. Muitas de nós também tem que cuidar dos filhos, que também estão com a saúde mental prejudicada. Mas algumas horas vamos chorar, não vamos conseguir dormir. Isso faz parte.

O que piora - e por isso a declaração de Michelle é importante - é achar que além de sobreviver e cumprir nossas tarefas precisamos estar super criativos, tendo ideias geniais, nos divertindo. Gente, estamos vivendo uma catástrofe. Nunca a frase da música "eu não consigo ser feliz o tempo inteiro" foi tão atual. Na verdade, se você conseguir ficar feliz por cinco minutos atualmente já está bom. E se não ficar nem isso, sem problemas.

"Isso é saúde mental. Você tem altos e baixos", disse Michele. E aproveitou para dar um conselho (eu disse que ela era boa); "o que eu disse às minhas filhas é que uma das coisas que está me ajudando é que tenho idade suficiente para saber que as coisas vão melhorar." Sim, vai passar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL