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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nem príncipe nos salva: como Meghan, sorrimos na foto em vez de pedir ajuda

Meghan revelou ter tido depressão quando vivia com a Família Real - Getty Images
Meghan revelou ter tido depressão quando vivia com a Família Real Imagem: Getty Images
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

09/03/2021 04h00

Nos últimos anos, os paparazzi se deliciaram com Meghan Markle, a atriz que virou duquesa ao se casar com o príncipe Harry.

Fotos da americana bem vestida e com aparência radiante rodaram o mundo. As roupas usadas por ela se esgotaram rapidamente, e todas nós demos uma olhadinha em seu estilo babando com tanta elegância. O que a gente não sabia: debaixo daquela make, a atriz estava deprimida e, enquanto sorria, pensava em se matar.

Esta e outras revelações foram feitas pela própria Meghan em entrevista a Oprah, concedida junto com Harry à rede de TV americana CBS e exibida na noite de domingo. Chorando, ela contou que chegou ao fundo do poço e que tinha pensamentos suicidas nos dois anos em que viveu próxima à Família Real britânica desde que se casou, em 2018. No início do ano passado, ela e Harry deixaram suas funções junto à realeza e se mudaram para os EUA.

"Eu simplesmente não queria mais estar viva. E esse foi um pensamento constante, muito claro e assustador", disse ela a Oprah.

Para ilustrar a situação, Meghan deu um exemplo impressionante: no dia em que contou para o marido que passava a noite pensando em se matar, os dois precisavam ir a um evento. E ela foi, apesar de estar péssima, porque não podia ficar sozinha. "Por que você poderia fazer algo errado?", perguntou Oprah. "Sim", respondeu.

Nas fotos do evento, ela estava linda como sempre, em um vestido brilhante mostrando a barriga de grávida. Olhando aquele retrato, a gente deve ter pensado que aquilo é que era vida boa e sentido uma leve inveja da moça linda, grávida de um filho que nasceria literalmente em berço de ouro, amada e glamourosa.

Bem, por trás de toda a imagem perfeita que a gente invejava, estava uma mulher desesperada por socorro, que pedia sem sucesso ajuda para ser internada, com medo de "fazer alguma bobagem".

"Você não tem ideia do que se passa com as pessoas. Mesmo com quem está sorrindo, você tem de ter compaixão", contou ela, chorando, na entrevista.

É fato. Não sabemos. E nunca foi tão fácil fingir felicidade e vida perfeita. Para isso, não precisamos de paparazzo, já que nós mesmas nos fotografamos e exibimos nossa "perfeição" e nossa vida maravilhosa para os amigos nas redes sociais. Em vez de pedir socorro, sorrimos em selfies.

E, em uma corrente que nunca acaba, olhamos para outras fotos de pessoas sorrindo como uma vida ótima e acreditamos e invejamos, sem imaginar que por baixo do filtro a outra pessoa pode estar péssima.

Não estou falando que todas nós estamos com pensamentos suicidas no momento (se você estiver, procure ajuda). Mas, principalmente agora, em plena pandemia mundial, com cerca de duas mil pessoas morrendo por dia de coronavírus no Brasil, não existe quem esteja bem o tempo todo, superfeliz, com uma vida maravilhosa.

Inclusive, porque vida perfeita não existe, mesmo quando não há uma pandemia. E não existe príncipe que possa mudar isso. Muito pelo contrário, quem casa com um príncipe, como mostram Meghan e Diana, apenas aumenta os seus problemas.

Errata: o texto foi atualizado
Anteriormente, a matéria afirmava que Megan é canadense.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL