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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Malcolm & Marie, sucesso da Netflix, fala de abuso e competição entre casal

John David Washington e Zendaya vivem casal em crise em "Malcolm & Marie" - Reprodução / Internet
John David Washington e Zendaya vivem casal em crise em 'Malcolm & Marie' Imagem: Reprodução / Internet
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

19/02/2021 04h00

"Você é instável! Você é louca! Juro, estou falando isso porque estou preocupado com você", diz o homem aos berros enquanto come um macarrão instantâneo. Esse é só um dos momentos em que o filme "Malcolm & Marie", sucesso recente da Netflix, faz com quem já viveu um relacionamento tóxico e em crise (quem nunca?) tenha vontade de entrar na tela do filme e gritar de volta com o personagem.

O filme é quase um "powerpoint" sobre relacionamentos em crise, amor, machismo e o jogo de poder praticado por homens "sensíveis" e artistas, o que a gente chama de esquerdomacho.

A obra, dirigida por Sam Levinson e estrelada por Zendaya e John David Washington, conta a história de um casal. Malcolm é um cineasta negro, que acabou de estrear seu primeiro filme com sucesso. Marie é sua mulher, atriz jovem e ex-viciada em drogas. O tal filme que ele estreou é sobre uma jovem largando as drogas. Na première, na hora dos agradecimentos, ele esquece de citar o nome da amada. Esse é o enredo. E é o suficiente para gerar uma experiência claustrofóbica nesses tempos de quarentena.

Todo o filme se passa dentro de uma casa, em uma noite de briga. A pandemia aumentou o número de divórcios e crises entre casais. Quem está trancado com o parceiro vai se identificar.

Síndrome de impostora

Já na primeira cena, o filme mostra como mulheres e homens lidam de maneira diferente com o sucesso. Malcolm, que acabou de voltar da estreia, passa uns 10 minutos apenas falando do seu sucesso: "eu arrasei! Foi uma bomba! Foi incrível. Eu sou foda". Ele fala tudo sozinho enquanto Marie fuma na varanda. O que a maioria das mulheres faz depois da estreia de um trabalho? Em geral, nos perguntamos: "será que gostaram mesmo?" "Eles devem ter falado só para me agradar".

Pois Malcolm, representante dos homens com ego gigante, apenas se vangloria. Tanto que o momento em que ele mais fica nervoso na briga interminável é quando Marie fala para ele: "você não vai ser o próximo Spike Lee". Depois de ouvir isso, ele surta. Sim, chega a ser engraçado de tão realista.

O filme mostra com muito realismo como duas pessoas inteligentes, quando formam um casal, podem, no meio de uma briga qualquer, cair no perigoso jogo do "quem machuca mais o outro", com todos os requintes de crueldade que só existem entre quem se conhece muito bem e que termina com duas pessoas insanas e cheias de ódio. Conselho: fuja sempre desse jogo, ele nunca acaba bem.

Como mulher, é impossível ver o filme sem sentir raiva de Malcolm. Ele é o intelectual egocêntrico, cruel. Mas, no fim, o que o filme mostra é que homens e mulheres, dentro de um relacionamento, podem virar extremamente destrutivos e cruéis, até chegar em um ponto de abuso que se torna perigoso.

E, o que é pior: essa é uma realidade bem comum, que em maior ou menor grau já aconteceu com quase todo mundo que teve relacionamento longo. Deve ser por isso que "Malcolm & Marie" assuste tanto quem assiste. A lição final que fica é aquela da música do Caetano, "de perto ninguém é normal".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL