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Nina Lemos

Prefeito de saia. Por que a imagem da mulher ainda é ridicularizada?

Prefeito de Mampituba (RS), Pedro Juarez da Silva usa saia em cerimônia de posse - Reprodução
Prefeito de Mampituba (RS), Pedro Juarez da Silva usa saia em cerimônia de posse Imagem: Reprodução
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

06/01/2021 04h00

"Se eu passar de ano, eu me visto de mulher". "Se eu não zerar em álgebra, juro que venho na escola de saia." Dá até para imaginar adolescentes fazendo esse tipo de aposta. Seria bobo, machista, mas aceitável como uma "brincadeira de criança". Só que a política brasileira (a parte ocupada por homens, que é a grande maioria) parece uma quinta série. E, por isso, quem fez a tal promessa foi um candidato a prefeito.

Trata-se de Pedro Juarez da Silva, o "Pedrão", prefeito de Mampituba, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, que tomou posse usando uma saia longa para pagar uma aposta que fez com o açougueiro da cidade. A aposta: se ele ganhasse por mais de 300 votos, tomaria posse de saia.

O prefeito usou a peça de roupa em uma cerimônia de nomeação de secretários. A imagem viralizou e na cerimônia todos riram. Ele tem comemorado o sucesso do ato e a "tática quinta série" pode até ter feito mesmo com que ele ganhasse popularidade.

Mas é vergonhoso que esse tipo de "piada" seja feita em uma coisa tão séria como é uma cerimônia de posse. É preciso decoro, não? E esse tipo de graça machista do tipo: "se isso acontecer eu me visto de mulher!" "Eu, tão macho, sou até capaz de usar uma saia" era para ser totalmente ultrapassada.

E até entre os adolescentes de hoje isso não seria aceito, já que os jovens dão aula para nós, mais velhos, sobre respeito a todos os gêneros. Muitas escolas têm um nível de maturidade muito maior que, por exemplo, o Congresso Nacional.

Na "casa do povo", só no ano passado, uma pessoa vestida de cachorro já ocupou a mesa de discussão da Câmara. Em uma sessão online, um deputado apareceu vestindo uma máscara de Scooby Doo(!)

E, claro, não podemos esquecer a sessão em que foi votado o impeachment da presidente Dilma Rousseff, quando deputados exibiram bonecos que faziam piada em relação a aparência da então presidente e carregaram faixas onde estava escrito "adeus, querida" Aquele momento em 2016 foi uma espécie de exibição de vitória da turma dos machos da escola. Um horror.

Ano passado, as eleições apontaram algumas mudanças positivas. Junto com o prefeito que usou saia e despertou risadas machistas, tomaram posse semana passada mais mulheres, trans, mulheres negras e homens negros do que nunca. O número de vereadoras trans eleitas, por exemplo, aumentou 200%. Essas mulheres merecem respeito e não piadinhas. E, claro, imagina se uma mulher na política poderia se dar ao luxo de usar uma fantasia no dia da posse.

Mulheres na política, mesmo quando agem com decoro, são ridicularizadas. Sim, se fantasiar ao assumir cargo público para o qual se foi eleito é um privilégio de homem branco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL