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Nina Lemos

Calabresa continuou próxima de quem acusa de assédio. Por que isso é comum?

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

23/12/2020 04h00

Conheço muitas mulheres que já sofreram assédio sexual. Algumas delas tiveram relacionamentos onde sofreram abusos físicos. As formas de violência e os agressores variam. Algumas sofreram assédio sexual no trabalho, outras agressões de namorados ou ficantes. Infelizmente, isso é bem comum. Também tenho amigas que foram abusadas por pessoas em quem acreditavam muito, como líderes religiosos.

A maioria dessas mulheres demorou um bom tempo para perceber ou assumir que realmente estava em um relacionamento abusivo, ou no mínimo extremamente nocivo.

Lembrei disso depois de ler as mensagens que, segundo Marcius Melhem, foram mandadas por Dani Calabresa para ele e divulgadas pelo ex-diretor da Globo primeiro em uma reportagem da Folha, depois durante uma entrevista no TV Record.

Nas mensagens, Dani é carinhosa com o então chefe meses depois do dia em que conta ter sofrido um assédio sexual violento. Para o ator, talvez isso fosse prova de que o assédio não aconteceu.

Pois a minha experiência mostra que não é assim, de jeito algum. Pelo contrário, o mais comum é que, depois de sofrer uma agressão, além de demorar um bom tempo para perceber a gravidade do caso, a gente mantenha uma relação de proximidade com a pessoa por um bom tempo. As únicas vezes em que vi rompimentos mais rápidos foram quando já não havia relação de afeto.

Quando existe proximidade (e atenção, abusadores também são, muitas vezes, homens inteligentes e sedutores) já vi mulheres demorarem meses para se afastar (quando amigas clamavam que o sujeito não prestava). É comum ver mulheres defendendo sujeitos que já a agrediram. E isso não acontece só no relacionamento de casal, mas em todos em que existe poder e admiração. As coisas não são, assim, preto no branco.

Segundo a advogada e consultora de família Vanessa Tadeu de Paiva, depois de sofrer um assédio ou uma agressão, o sentimento de vazio é enorme. "Por isso, no primeiro momento essa mulher tenta preencher esse vazio, se curar dessa dor que ela está sentindo, tentando ela mesma amenizar o que houve, fingindo que o que aconteceu não foi tão grave", explica.

Segundo ela, é muito comum que a gente continue "com medo de desagradar" alguém que ocupa uma posição de poder, seja namorado, chefe ou líder religioso. "No trabalho é comum que um chefe inconscientemente ocupe essa posição de poder, de autoridade. E é difícil desagradar alguém nessa posição" diz.

Ou seja, isso é comum. E muitas de nós já passamos por isso. Cada uma tem seu tempo e seu processo. Não somos "fracas ou bobas" por não conseguir romper de imediato com um assediador. Quando isso acontece, a gente continua sendo vítima. E não devemos nos culpar. Uma hora a ficha cai.