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Nina Lemos

Abusos na ginástica rítmica: pressão estética feminina levada ao extremo

Angélica Kvieczynski, uma das atletas que fizeram a denúncia. - Reprodução / Facebook
Angélica Kvieczynski, uma das atletas que fizeram a denúncia. Imagem: Reprodução / Facebook
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

20/12/2020 16h32

É comum que adolescentes tenham problemas de autoimagem. Essa é a época em que nossos corpos estão mudando e, também, em que somos mais suscetíveis a padrões de beleza impossíveis de alcançar. Na adolescência, é comum que meninas chorem em frente ao espelho se achando "gordas".

Tudo piora, claro, quando a gente sofre bullying. Nesse caso, o dano pode ficar para sempre. E, não, isso não é "mimimi". Segundo pesquisa da Organização Mundial de Saúde, 4,7% dos brasileiros sofrem algum distúrbio alimentar. No caso dos adolescentes, o número chega a 10%.

Agora, imagina passar por tudo isso sendo xingada e humilhada por adultos, que que te puniriam quando você engordasse?

Parece um filme de terror, mas acontecia, e muito, em um ambiente "saudável" e oficial: os treinamentos da equipe de ginástica olímpica da seleção brasileira.

As denúncias dos maus tratos e abusos sofridos pelas atletas foram exibidas neste domingo em uma reportagem do Esporte Espetacular. Vinte e sete atletas confirmaram abusos e bullying sistemático. Segundo a reportagem, os casos aconteceram entre 2000 e 2016. Ou seja, são 16 anos de tortura.

O uso da palavra tortura não é exagero. As atletas contam que eram proibidas inclusive de beber água. No caso dos xingamentos e das humilhações, a medalhista nos Jogos Pan-Americanos Angélica Kvieczynski, por exemplo, disse que era chamada de "vaca gorda".

Ser xingada assim já seria um problema, repito, se se tratasse de bullying na escola. Agora, imagina isso sendo cometido por seu treinador, em um ambiente de alta competição?

É triste e revoltante saber que esse tipo de absurdo acontece em um ambiente onde elas deveriam estar protegidas, mas não chega a ser surpresa. Ambientes de esportes como ballet e ginástica podem ser cruéis com mulheres.

Quando mal comandado, ginásios de treinos podem ser uma versão mais pesada dos concursos de modelo, já que além do 'corpo magr, ali são exigidas ainda mais privações.

O horror fica maior quando a gente pensa que essas meninas foram confiadas por suas famílias e que treinadores (ainda mais da seleção) são vozes de poder e com credibilidade. Quem acharia que estaria colocando uma filha em um ambiente de abuso quando ela mostra talento e vontade de se dedicar a um esporte como a ginástica rítmica?

As mulheres ouvidas pela reportagem do Esporte Espetacular prestam um serviço de utilidade pública e alerta ao fazer essas denúncias. Mulheres, independente do ambiente, não podem ser tratadas como animais que "passam do peso". E, claro, uma seleção de esporte olímpico não deveria parecer um campo para trabalhadores escravizadas…