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Nina Lemos

Choro e exaustão: 2ª onda da covid é ainda mais cruel para plantonistas

A enfermeira Shana Telo, Porto Alegre, está em isolamento, com COVID, contaminada pela segunda vez. - Arquivo pessoal
A enfermeira Shana Telo, Porto Alegre, está em isolamento, com COVID, contaminada pela segunda vez. Imagem: Arquivo pessoal
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

16/12/2020 04h00

"Gente, alguém pode me ajudar no plantão amanhã no Covid? Motivo: exaustão".

Mensagens como essa, de alguém implorando para trocar um plantão marcado, se tornaram comum nos grupos de médicos. Prints delas chegaram a circular no Twitter. A médica Ana Paula Rodrigues Arias, que trabalha em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em São Paulo, confirma. Ela se prepara para voltar a fazer plantões em enfermarias de Covid, onde trabalhou até maio.

Ana Paula, assim como outras profissionais ouvidas por esta coluna, conta como anda a saúde mental dos profissionais que atuam na linha de frente no momento em que notam um crescimento exponencial dos casos. Em geral, as médicas e enfermeiras estão exaustas. São comuns ataques de choro, uso de remédios controlados e sintomas de estafa.

"Agora é muito pior do que na primeira onda porque as pessoas estão cansadas, ninguém mais faz isolamento. Me sinto lutando sozinha em uma guerra", diz Ana Paula. A médica nota aumento de mais de 50% de casos de covid na unidade em que trabalha mais de 40 horas semanais. Além do cansaço físico, ela relata medo e solidão. Recém-formada, Ana Paula já perdeu a conta de quantos pacientes viu morrer: "Já tive vários ataques de choro no plantão".

No caso de Gabriela Diniz, intensivista do Hospital das Clínicas e do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, o que pega é o "cansaço crônico". "Às vezes consigo ficar uns dois dias longe do hospital. Mas é um cansaço constante. Passei a fazer terapia e tenho o péssimo hábito de fumar. Uso o cigarro como Rivotril, para aliviar os momentos de tensão."

A enfermeira Shana Telo, 40, de Porto Alegre, tem 16 anos de experiência, já é veterana na profissão, mas pela primeira vez passou a ter ataques de pânico e sentir medo no trabalho. No momento, ela está em isolamento, contaminada com covid pela segunda vez. "Quando recebi o resultado chorei muito. Eu tomo muito cuidado. Fiquei revoltada que isso acontecesse de novo", contou. Nas duas vezes em que se infectou, ela se contaminou no trabalho.

Leia os depoimentos abaixo

"Falta médico e falta respeito"

Gabriela Diniz, 32 anos, é residente de medicina intensiva e trabalha no Hospital Oswaldo Cruz e no Hospital das Clínicas em São Paulo - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Gabriela Diniz, 32 anos, é residente de medicina intensiva e trabalha no Hospital Oswaldo Cruz e no Hospital das Clínicas em São Paulo
Imagem: arquivo pessoal

"Na primeira onda existia uma preocupação gigante, mas existia também uma energia que vinha sei lá de onde para tentar fazer tudo e qualquer coisa para amenizar todo aquele caos que estava acontecendo. Agora na segunda onda o cenário é bem diferente. Estamos todos esgotados. Exaustos. Ninguém tem a "energia divina" mais. Acabou tudo isso. O que não acabou foi a pandemia, a quantidade de pacientes graves e famílias desesperadas.

Não dá tempo de fazer nada. Você fica exausto, são muitos pacientes precisando de suporte. Temos que ficar em cima do paciente com vários procedimentos e isso leva ao cansaço físico.

A gente só quer terminar o plantão e ir para casa dormir, pra poder voltar lá no dia seguinte.

Além de tudo, o que pesa bastante mentalmente é a necessidade de suprir a ausência da família dos pacientes que estão internados. Ter que dar notícia de óbito por telefone é horrível. Nunca fomos tão frios quanto agora. A gente se acostuma, mas segue sendo algo difícil de engolir.

Está tudo cheio de novo, no privado, no SUS, em todo canto. Faltam vagas, faltam médicos, enfermeiros, fisioterapeutas. Falta aquela energia de antes. E tudo começa na falta de respeito com as pessoas não respeitando qualquer indicação de distanciamento, indo a baladas, fazendo festa."

Gabriela Diniz, 32 anos, é residente de medicina intensiva e trabalha no Hospital Oswaldo Cruz e no Hospital das Clínicas em São Paulo

"Quando vi meu segundo teste positivo chorei três dias"

A enfermeira Shana Telo, de Porto Alegre, está em isolamento, com COVID, contaminada pela segunda vez. - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A enfermeira Shana Telo, de Porto Alegre, está em isolamento, com COVID, contaminada pela segunda vez.
Imagem: Arquivo pessoal

"Atendemos de um tudo, de pré-natal a problemas respiratórios. Estamos cada vez mais cansados e doentes. A segunda onda está muito pior do que a primeira. Na primeira, as pessoas tinham medo de buscar atendimento. Agora, as unidades estão bombando mais. Trabalhamos muito, com equipe reduzida e com muito medo.

Depois que me infectei pela primeira vez tive dois episódios de pânico. Fiquei com muito medo de morrer, de ir para o hospital e nunca mais voltar. Para lidar com esses pensamentos e sensações, estou fazendo terapia e tomando medicação.

Para mim, o pior é lidar com o afastamento das pessoas. Desde o início da pandemia, só vejo a minha família de longe. Tenho uma filha de 5 anos que não está indo para a escola e que é vinculada ao grupo onde trabalho. Ela fica muito isolada por conviver comigo, coitadinha. Fico nesse fogo cruzado.

Quando vi meu segundo teste positivo chorei três dias. Puxa, eu uso EPI. Não como na cozinha com os meus colegas. Ao mesmo tempo, vejo muita gente em festa, churrasco. É muito frustrante."

Shana Telo, 40 anos, é enfermeira em Porto Alegre

"É horrível ver o medo no olho das pessoas"

Recém-formada, Ana Paula já perdeu a conta de quantos pacientes viu morrer: "Já tive vários ataques de choro no plantão". - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Recém-formada, Ana Paula já perdeu a conta de quantos pacientes viu morrer: "Já tive vários ataques de choro no plantão".
Imagem: arquivo pessoal

"Eu perdi o meu pai há dois anos. Ele também era médico. Então, a perda é uma coisa muito difícil para mim. Me coloco no lugar da família que está perdendo alguém que ama. Eu trabalho na UPA. Na primeira onda fiz também plantão na enfermaria de covid. Fiz porta, então tive contato com muitos casos.

Apesar do estresse, vou voltar a fazer. Fui voluntária da CORONAVAC e consegui ser imunizada. Por isso, sinto que tenho obrigação de ficar em áreas arriscadas, já que estou protegida e meus colegas não.

É muito triste ver o medo no rosto das pessoas. O pavor quando a gente diz que tem que entubar. As pessoas sabem que as chances de sair de uma intubação por covid não são grandes, então é difícil. Outra parte muito triste para mim é dar notícia para a família. É horrível ter que dizer que a pessoa não está se desenvolvendo bem. Também sofro muito quando perco paciente, já tive ataque de choro em plantão. E, como tive depressão, sei que tenho que me cuidar, por isso faço terapia.

O que eu mais sinto é uma grande solidão. Quando saio do plantão e vejo as pessoas na balada, parece que é um universo paralelo, que estou lutando sozinha. Nós que estamos na linha de frente não vemos mais um amigo. Estou há nove meses sem abraçar a minha mãe. Mesmo agora que tenho anticorpos, meu maior medo é contaminá-la. E quando vejo todo mundo de boa no bar fico muito mal. Me afastei de vários amigos. Para eles, virei "a chata".

Ana Paula Rodriguez Arias, 25 anos, médica em São Paulo.