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Nina Lemos

Porta dos Fundos faz vídeo machista com vereadora eleita. Até eles?

Imagem do vídeo do Porta dos Fundos  -  Reprodução/Twitter
Imagem do vídeo do Porta dos Fundos Imagem: Reprodução/Twitter
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

23/11/2020 15h44

Até um tempo atrás, era comum ver personagens de humor fazendo piadas de mau gosto com mulheres, gays, gordos. Essa era a norma e eram poucas as exceções. De um tempo para cá, mais gente percebeu que isso era inaceitável e também sem graça (que bom!). Inclusive, surgiram novos grupos de humoristas fazendo piada de outras maneiras. Um desses grupos, o mais famoso no Brasil, é a turma do Porta dos Fundos.

Os vídeos do grupo costumam rir da sociedade de maneira sarcástica, sem apelar para esses estereótipos do humor de antigamente. Quer dizer, isso na maioria das vezes. O grupo lançou ontem um vídeo onde um ator interpreta uma vereadora que é "a mais votada em Curitiba pelo partido Novo. A personagem Yollanda manda nudes e quer apoiar a suruba.

Na vida real, Curitiba teve uma vereadora do recordista de votos pelo partido Novo. Trata-se de Indaiara Barbosa. Nas redes sociais, ela manifestou repúdio contra a peça humorística. "Apesar de ter sido a vereadora mais votada de Curitiba, certamente essa personagem não sou eu. É uma pena que o Porta dos Fundos associe o sucesso de uma mulher a alguma conotação sexual. Temos muito trabalho para mudar essa cultura", escreveu no Twitter. O grupo de humoristas respondeu:

Independentemente de ter sido ou não inspirado em Indiara, a esquete é lamentável.

No vídeo, a vereadora é uma mulher que se candidatou sem querer, porque foi parar em uma festa do Partido Novo. Basicamente, uma desequilibrada, amiga da comunidade de "swing do Paraná". Para piorar, ela está interessada em ser vereadora para receber um tal "bolsa auxílio garoto de programa."

Péssimo. Ainda mais em 2020, o ano em que mulheres fizeram avanços importantes. O número de mulheres vereadoras cresceu em 18 das 25 capitais brasileiras. Em cinco capitais, mulheres estão no segundo turno disputando a prefeitura. Ainda é pouco. Mas é uma melhora e tanto.

Mas, apesar dos avanços, mulher na política ainda é exceção e raridade.

E o preconceito não para depois que as mulheres sejam eleitas, pelo contrário. Elas estão sujeitas a toda sorte de ataques.

A ex-presidente Dilma Rousseff, todos lembram, era chamada de "DilmAnta". No momento em que faz campanha, a candidata Manuela D'Ávila é chamada de "vadia". Joice Hasselmann tem o apelido de Peppa Pig. Esses exemplos deixam claro que o preconceito atinge mulheres de todas as vertentes políticas.

Quando mulheres chegam no poder, têm que lidar com todo tipo de pressão para desacreditá-las. O vídeo do Porta dos Fundos vai na mesma direção e reforça o estereótipo de que mulher, quando na política, está no lugar errado.

"Ah, mas o humor não pode ter limites", dizem alguns. Bem, tudo na vida pode ter limite. E, no caso da esquete infeliz, nem engraçada ela é. Uma pena que esse tipo de humor ainda apareça, até nos ambientes mais progressistas e criativos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL