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Nina Lemos

Trump e Covid: masculinidade tóxica cria comportamento de risco na pandemia

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

08/10/2020 04h00

Essa semana, o mundo todo acompanhou a curta estada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no hospital. Ele se contaminar com o Coronavírus não surpreendeu ninguém, já que ele andava por aí sem máscara, inclusive no meio de multidões, em plena pandemia mundial. Assustador mesmo foi a maneira como ele saiu do hospital.

Trump, que é um paciente do grupo de risco, chegou a precisar de oxigênio e tomar medicamentos fortíssimos. Ele deixou o hospital três dias depois e, ao chegar na Casa Branca, tirou a máscara e falou algumas palavras. Detalhe: ele parecia ter problemas para respirar. Antes, no mesmo dia, ao anunciar que sairia do hospital, ele escreveu em seu perfil no Twitter: "não tenha medo do Covid-19!"

Trump faz parte da parcela de pessoas que gosta de fazer pouco do vírus e de quem se protege, como se esses fossem fracos. No debate presidencial, poucos dias antes de anunciar que estava doente, Trump fez piada com o seu oponente, Joe Biden, pelo fato dele "sempre usar uma máscara enorme".

Trump, assim como o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, são exemplos mundiais da masculinidade tóxica e de como ela é prejudicial em tempos de pandemia.

Bolsonaro também evita máscaras, se mete em meio a multidões e já disse: "enfrento o vírus como um homem, não como um moleque."

Bem, ele quis dizer, provavelmente, que homem que é homem não tem medo ou não faz frescuras como usar máscara. O que ele não sabia é que o comportamento propagado por Trump e por ele e muitos outros "machões" já é visto pelos cientistas como uma espécie de "comportamento de risco" causado por excesso de masculinidade tóxica.

Estudiosos da Universidade de Nova York divulgaram essa semana uma pesquisa que mostra aquilo que a gente imaginava: a masculinidade tóxica faz com que os homens sigam menos as regras ditadas pelas autoridades de saúde para o controle do vírus do que as mulheres.

Um exemplo, eles conversaram com americanos e concluíram que 58% das mulheres afirmaram usar máscara o tempo todo. O número de homens era de 42%.

Entre as possibilidades levantadas para esse comportamento, está o fato de os homens se acharem invencíveis e terem na cabeça ideias do tipo: "usar máscara é sinal de fraqueza!"

Com complexo de super-homem e medo de "parecerem fracotes", muitos se colocam em risco. E, no caso do Coronavírus, ameaçam também outras pessoas, o que é pior.

O caso de Trump é o exemplo perfeito para ilustrar esse tipo de comportamento. Agora, ele insiste a ir a um debate mesmo estando doente e tomando fortes medicações. No caso, dele, a toxicidade é literal, já que presidente virou um propagador do vírus ambulante.

Donald Trump não é bobo. E sabe muito bem que muitas pessoas admiram seu comportamento "destemido". Inclusive, essa parece ter virado a sua estratégia de campanha: mostrar que ele é "macho", que não se abate com qualquer "gripezinha." Tem quem goste e isso gera popularidade.

A masculinidade tóxica nunca foi tão perigosa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL