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Nina Lemos

Famosas falam sobre ter síndrome do pânico. E nós, panicados, agradecemos

Angélica diz que diminuiu as crises de pânico com ajuda da meditação - Reprodução / Internet
Angélica diz que diminuiu as crises de pânico com ajuda da meditação Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

24/09/2020 04h00

"Estava andando na rua e travei. Não conseguia andar." Quem disse isso foi Angélica, rica, linda e, pelo menos de longe com uma vida perfeita. Mas poderia ter sido eu, ou Rafa Kalimann, outra famosa que, recentemente, declarou que sofre de síndrome de pânico. Nós, que sofremos de síndrome de pânico, somos cerca de 10% da população brasileira. Segundo dados da OMS, a maioria das acometidas são mulheres.

Pode parecer muito estranho que uma pessoa como Angélica trave no meio da rua. Na verdade, é estranho mesmo, mas entendo a apresentadora porque sei o que ela sentiu.

Explicar essa sensação horrível é difícil. Mas já me aconteceu de parar no meio da rua e pensar: "não vou conseguir atravessar". É um sentimento de medo paralisante, como se uma tragédia fosse acontecer, ou que você fosse morrer. Ou ficar louca. Resumindo: é horrível.

Com o tempo, aprendemos lidar. Angélica conta que, para ela, a saída foi a meditação. Para mim, uma combinação que já incluiu remédio, psicanálise e ioga, tudo ao mesmo tempo. O pânico é uma doença que a gente pode administrar e ter uma vida normal, sem dúvida.

Mas, uma das piores coisas de ter síndrome do pânico (além do sentimento horrível que nos faz parar no meio da rua achando que vai morrer) é o caminho até achar tratamento, ter ajuda e melhorar. Isso porque a gente lida o tempo todo com a incompreensão. Como você explica para alguém que está com medo (e estou falando de antes do Coronavírus, quando nem tínhamos motivo) de atravessar a rua para comprar pão? Ou que não consegue entrar em shopping center sozinha, porque acha que vai morrer? Ou, no meu caso, que eu não posso ficar sem telefone, porque só perceber que estou sem ele na rua me faz panicar? Quase impossível.

E, pior, é difícil para a gente mesmo entender o que tem, que não somos malucas nem frescas. Sim, essa é uma doença frequentemente confundida com "frescura". Já perguntei para o meu médico, muito tempo atrás, quando fui diagnosticada, se essa não era uma doença que atingia só pessoas da classe média para cima, uma variação dos "problemas de gente branca". Ele me garantiu que não. Síndrome do pânico pode atingir todo mundo, não importa a classe social.

Mas a síndrome ainda é confundida não só com frescura, mas também com preguiça. Por isso mesmo, é tão importante que uma pessoa com a fama de Angélica (e todo o combo da vida que parece perfeita) fale abertamente sobre isso. Cada vez que alguém fala, outras pessoas podem se sentir menos malucas ou frescas.

Além disso, claro, quem lida com a pessoa que tem a síndrome pode finalmente entender que a filha adolescente que não consegue ir ao supermercado não é preguiçosa. Ela está doente. Ela precisa de compreensão e tratamento.

Angélica falou sobre a síndrome essa semana em entrevista para o jornal "O Globo." Nada mais oportuno. Nunca vi tantas pessoas reclamando de ansiedade, pânico, depressão. Enquanto escrevia, uma amiga me ligou para dizer que andava estressada e, antes de dormir tinha tido um ataque de pânico. O confinamento, o medo de se contaminar, de perder alguém querido, ou o emprego, ou tudo ao mesmo tempo, só aumentam os sintomas de ansiedade e depressão. Desde o início da pandemia os médicos alertam para isso.

O que nós, os panicados, podemos falar para vocês que sofrem disso pela primeira vez é: um ataque de pânico passa (dura cerca de 15 minutos no máximo) e dá para viver com isso muito bem. Desde que você busque ajuda e se trate. E não, você não é maluca, nem fresca e nem dramática. Assim como eu, Angélica e Rafa Kalimann também não somos.