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OPINIÃO

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Constrangimento em banheiros públicos afeta pessoas trans e cis

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Imagem: joreks/Getty Images/iStockphoto
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

25/05/2022 04h00

Dias atrás um amigo, que é um homem trans, opinou no Twitter, onde tem mais de 20 mil seguidores, sobre o uso do banheiro em locais públicos. Esse amigo, que iniciou a transição hormonal há poucos meses, ainda tem algumas características físicas que são lidas como femininas, como seios. Por isso, às vezes ele usa o banheiro feminino; outras, o masculino, e afirma nunca ter sofrido transfobia nesses locais. Sua experiência pessoal, entretanto, é exceção, não regra.

Outros homens trans que comentaram o assunto nas redes disseram que não se sentem confortáveis, nem seguros em banheiros masculinos, dividindo o mesmo espaço com homens que têm pênis. E relataram já terem sido constrangidos por funcionários de alguns estabelecimentos ao utilizarem cabines femininas.

É importante frisar que banheiros unissex ou multigênero são uma realidade há décadas em ônibus e aviões, por exemplo, mas ainda não estão presentes na maior parte dos ambientes abertos ao público como shoppings, escolas e restaurantes.

Para meu amigo, que usa tanto o banheiro masculino quanto o feminino, essa questão poderia ser pontuada individualmente, porque é como ele lida, explicando aos funcionários dos ambientes que frequenta que ele é um homem trans.

Particularmente, eu não me sentiria confortável se sempre tivesse que procurar um funcionário para explicar detalhes da minha vida pessoal para justificar uma ida ao sanitário, uma necessidade tão básica.

Essa nunca foi uma questão com que eu tive que me preocupar. Como mulher cisgênero e com características físicas facilmente lidas como femininas, nunca fui barrada ou sofri constrangimento ao usar o banheiro. Mas essa não é uma realidade para todas as mulheres.

No mês passado, em São Paulo, Julia Mendes, uma jovem de 21 anos, foi discriminada por sua aparência. Na estação Sapopemba do metrô, Julia foi retirada com violência da cabine sanitária e agredida pelo segurança do local porque ele supôs, com base nas roupas e no cabelo curto de Julia, que ela seria um homem.

Em 2018, uma mulher trans foi desrespeitosamente impedida de usar o banheiro feminino na Festa de Peão de Pedranópolis, cidade que fica a 135 quilômetros da capital paulista.
Mesmo se apresentando socialmente como mulher, ela foi coagida a mostrar documentos que comprovassem sua transição de gênero para usar o banheiro feminino - uma imposição abusiva e sem nenhum respaldo em lei.

Neste mês, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) condenou a prefeitura de Pedranópolis e a empresa de segurança contratada para o evento e determinou o pagamento de R$ 6.060 pelos danos morais sofridos por ela.

O debate não é "só" sobre banheiro, o espaço físico, mas sobre passabilidade, algo subjetivo.

Os locais que meu amigo, que é um prestigiado comediante frequenta, provavelmente investem em treinamento aos funcionários para que a experiência de todos os clientes seja a mais agradável possível.

Uma simples ida ao banheiro não deveria se transformar em um pesadelo. Qualquer pessoa deveria poder acessar um assento sanitário sem sobressaltos.

A vitória recente da mulher de Pedranópolis abre caminhos, jurisprudência. Sinaliza que a falta de respeito e empatia é passível de condenação.

Praticar a alteridade, colocar-se no lugar do outro, não custa nada.