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REPORTAGEM

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Casal de médicas juntas há 10 anos viraliza mostrando rotina no Instagram

Influenciadoras, as médicas Bruna Garcez, 27, e Nayara Faquer, 26, falam sobre a rotina do relacionamento e dão dicas de viagens para mais de 10 mil seguidores - Reprodução/ Instagram
Influenciadoras, as médicas Bruna Garcez, 27, e Nayara Faquer, 26, falam sobre a rotina do relacionamento e dão dicas de viagens para mais de 10 mil seguidores Imagem: Reprodução/ Instagram
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

https://universa.uol.com.br/colunas/morango

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

01/12/2021 04h00

Juntas há 10 anos, as médicas Bruna Garcez, 27, e Nayara Faquer, 26, se conheceram na escola, na sétima série do ensino fundamental. Na época, quando ainda se relacionavam com garotos, as duas nem imaginavam que num futuro bem próximo seriam mais que amigas e muito mais que friends —e que ainda ficariam famosas no Instagram compartilhando dicas de viagens e detalhes da rotina.

"Ficávamos com homens porque fomos ensinadas a isso. A gente não entendia que existia uma outra possibilidade, mas a gente sempre se sentiu 'um peixe fora d´água' nesses relacionamentos", revela Bruna. "E a gente sentia muito ciúme ao ver a outra namorando", completa Nayara.

Sem referências LGBTQIA+ na adolescência, elas não conseguiam pensar na possibilidade de viver um romance, apesar do desejo secreto que nutriam uma pela outra. Até que isso mudou durante uma viagem da escola, quando uma colega de sala contou que ficava com meninas.
"Até então, a gente não tinha ninguém próximo como referência. Depois disso, eu e a Bruna começamos a conversar sobre o assunto, e um dia falamos 'a gente podia tentar ficar pra ver como vai acontecer'", lembra Nayara. Começava ali a maior e mais bonita aventura da vida de ambas. Mas o caminho não seria fácil.

'Não é isso que Deus quer pra mim'

De família extremamente religiosa, Bruna tinha uma ligação muito forte com a igreja católica e até coordenava um grupo de jovens. Se apaixonar por uma mulher fez com que ela fosse invadida por sentimentos de culpa e medo que nunca tinha experimentado antes. "Eu achava que se eu vivesse isso, iria para o inferno. Antes de beijar, eu já me sentia culpada, e vivi essa dualidade: 'quero, mas não posso, não é isso que Deus quer pra mim'. Todo domingo, depois que ia à missa, eu terminava com a Nayara.'

Nayara e Bruna - Reprodução/ Instagram - Reprodução/ Instagram
"Na maioria das vezes, a gente se sente deslocada por estar num passeio só com casais héteros, por exemplo. Aí tem criança menor e a mãe já fica olhando assim pra gente, tipo ‘não beija, não, hein?!’”, expõem as influenciadoras, sobre o turismo LGBTQIA+ no Brasil
Imagem: Reprodução/ Instagram

Foram quatro meses terminando todo domingo e reatando terça ou quarta, na escola. "Até que eu fui conversar com um padre sobre isso e praticamente passei por uma 'cura gay'. Eles rezavam pra mim, para que todo espírito de 'homossexualismo' saísse do meu corpo. Usavam esse termo, como se fosse doença. E obviamente não saiu porque eu sou assim, nasci assim. Comecei a me afastar da religião por causa disso."

Já Nayara, apesar de desprendida dos dogmas católicos, tinha outras questões que dificultariam sua autoaceitação —e a preocupação com o que as pessoas pensariam era uma delas. "Foi um processo diferente pra nós duas, mas foi difícil", revela.

Depois do colegial, elas fizeram um ano de cursinho juntas. Nayara passou em medicina no Rio de Janeiro; Bruna, em Campos de Goytacazes, a quatro horas de viagem. A distância e os conflitos internos causaram mais um rompimento. Esse, o mais longo e mais doloroso de todos.

'Cheguei a namorar um homem e foi horrível para as três partes'

"Quando passamos na faculdade, resolvi contar sobre a gente para a minha mãe. Ela falou que já sabia e aceitava, mas depois chorou por dias seguidos. Me senti muito culpada por ser um motivo de decepção e tristeza profunda pra ela. Nisso, pedi para terminar com a Nayara. Ficamos separadas por sete meses.

Namorei um homem e foi péssimo para as três partes, porque foi horrível para ele também.

Então não existia a possibilidade de 'virar', de mudar, de encontrar 'a salvação da minha vida'. A salvação da minha vida é viver o amor que a gente vive hoje. Terminei com o cara e disse: 'mãe, não importa o que você falar ou o que você quiser fazer, eu vou viver isso porque é quem eu sou'. Então mamãe voltou a chorar, depois passou."

Depois da chuva, o arco-íris

Quando reataram, Bruna e Nayara não se largaram mais. Mantiveram o namoro a distância até a formatura, e então se mudaram juntas para Montes Claros (MG).

Nayara e Bruna - Reprodução/ Instagram - Reprodução/ Instagram
“Vamos oficializar a relação e entrar pra fila de adoção. Este mês a gente vai entrar com os papéis e, no começo do ano que vem, se casar no civil”, revelam, sobre os planos pro futuro
Imagem: Reprodução/ Instagram

"O universo muda quando a gente se aceita. E quando a gente se aceita, as pessoas não têm mais o que falar —e quando falam não te atingem da mesma forma. Já não éramos mais duas crianças sendo atacadas, mas duas adultas vivendo a vida e o amor, que era genuíno", pontua Bruna. "Esse tempo separadas foi importante pra gente trabalhar, se aceitar e voltar com o relacionamento muito mais maduro", reflete Nayara.

Junto com a mudança de cidade e de ares, vieram novos projetos. Há seis meses o casal de médicas expõe a rotina no Instagram e tem feito o maior sucesso: já arrebataram mais de 10 mil seguidores.

"A gente sente a obrigação de falar sobre a nossa relação, nosso processo de autoaceitação e de demonstrar afeto. Algumas pessoas encararam a demonstração de afeto como falta de respeito ou qualquer coisa do tipo, só que não é. Recebemos inúmeras mensagens de pessoas que se sentem culpadas, mesmo mulheres mais velhas ou homens gays se descobrindo. Outro dia uma mãe perguntou pra gente como poderia lidar com isso, porque acha que a filha é lésbica e não queria que ela sofresse o que a gente sofreu no começo. A filha tem 13 anos. Então, assim, é muito importante esse lugar de fala", expõem.

Nayara e Bruna - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O casal se conheceu no colégio
Imagem: Arquivo pessoal

O amor está nos detalhes

Sobre a receita da longevidade da relação, que completa 10 anos, a resposta é uníssona: respeito e cuidado com os detalhes. "Bruna cozinha porque ela prefere cozinhar. Eu sou melhor pra limpar a casa, pra cuidar das roupas, essas coisas. O objetivo sempre é que seja bom para as duas. Quanto às brigas, a gente não fica tentando ver quem tá certa, quem tá errada. A gente encontra o problema e pensa no que pode fazer pra melhorar, no que pode mudar ou contornar. Não ficamos numa briga de egos", diz Nayara.

"Nosso relacionamento é muito leve. Todo dia é dia de comer alguma coisa gostosa, de fazer carinho, de cuidar da outra, de conversar sem celular perto, só ouvindo música e curtindo. A gente curte muito a presença uma da outra. Acho que isso vai fazendo com que a gente lembre todos os dias por que a gente está aqui e por que a gente escolheu isso", declara Bruna.