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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Psicóloga, ela tem revolucionado o atendimento clínico a mulheres lésbicas

A psicóloga, escritora e influenciadora Angélica Glória: “É importante a lésbica buscar profissionais que falam sobre lesbianidade de forma responsável. Existe muito despreparo".”  - Reprodução/Instagram
A psicóloga, escritora e influenciadora Angélica Glória: “É importante a lésbica buscar profissionais que falam sobre lesbianidade de forma responsável. Existe muito despreparo'.” Imagem: Reprodução/Instagram
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

https://universa.uol.com.br/colunas/morango

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista do UOL

25/11/2021 04h00

"Uma vez, quando fui a uma psi, ela disse que eu gostava de mulher ou por idolatrar minha mãe ou por achar meu pai um fracasso."

"Quando assumi um relacionamento com uma mulher, minha psicóloga disse que eu não amava minha namorada, apenas estava projetando porque sentia saudades da minha mãe, que morava em outra cidade."

"Ainda não contei pra minha psicóloga que sou lésbica. Tenho medo de rejeição ou algo pior."

Os três desabafos acima são só alguns dentre dezenas dos que a psicóloga Angélica Glória recebe todos os dias pelo Instagram. Na rede social, onde tem mais de 17 mil seguidores, ela produz um extenso conteúdo sobre lesbianidade e também responde às mais variadas perguntas sobre o assunto.

Graduada em Psicologia Clínica pela Universidade Federal Fluminense e com mestrado em Psicologia Social pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Angélica é, também, uma mulher lésbica.

"Uma terapeuta me levava a acreditar que eu estava secretamente a fim de homens"

Antes de ser psicóloga, ela foi paciente e, nessa posição, sentiu na pele o despreparo de alguns profissionais para lidar com a orientação sexual de suas clientes. "Já me consultei com uma terapeuta que me levava a acreditar que eu estava secretamente a fim de homens que me incomodavam e que me causavam nervoso ou raiva", revela.

"Como eu me entendi lésbica foi um longo processo. Me entendi bissexual, mas aí percebi, com tempo, que o interesse por homens tinha muito mais a ver com admiração a características que são ditas 'masculinas', mas que na verdade eram coisas que eu queria ser e fazer. Eu ficava super a fim de caras que tocavam violão e guitarra, por exemplo, porque eu não achava que eu seria capaz de aprender a tocar um instrumento. Na época, eu não tinha consciência disso, mas depois comecei a estudar sobre a heterossexualidade compulsória e perceber coisas lá de trás, de quando eu era novinha."

Representatividade importa

Angélica conta que, por volta dos 22 anos, entendeu que o que antes enxergava como amizade ou admiração por mulheres era, na verdade, atração sexual. "Foi dessa forma, e por perceber outras mulheres lésbicas na mídia e em vários espaços, que fui notando que me identificava. Conhecer mais mulheres lésbicas fez toda diferença. Ver que era normal não viver em função de aprovação masculina, e que eu não era esquisita ou estranha por isso. Aí realmente me entendi enquanto lésbica."

O primeiro livro sobre atendimento clínico para mulheres lésbicas

"Cuidado com Mulheres Lésbicas: prática clínica em psicologia" - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Autora do livro "Cuidado com Mulheres Lésbicas: Prática Clínica em Psicologia", o primeiro sobre atendimento clínico voltado para mulheres lésbicas, Angélica conta que a escolha por esse caminho profissional surgiu a partir da identificação de uma necessidade urgente. Até então, seu campo de atuação era completamente diferente.

"Antes meu foco de trabalho eram mães e cuidadoras de pessoas com autismo. Mas conforme fui falando da minha vida nas redes, consultando psicólogos e vendo amigas e colegas do meio lésbico relatando as experiências com psicólogas, fui sugada e não consegui trabalhar com outra coisa sabendo que as profissionais não faziam a menor ideia do que estavam fazendo na clínica", conta.

As psicólogas, em sua grande maioria, não sabem atender mulheres lésbicas, e não tinha literatura alguma na psicologia para falar sobre a subjetividade da mulher lésbica. Quando me dei conta disso, percebi que não dava pra fazer outra coisa, eu tinha que voltar o meu trabalho clínico e de pesquisa pra isso.

O livro, dividido em 14 capítulos, aborda questões como heterossexualidade compulsória, relacionamentos abusivos entre mulheres, auto-ódio, aceitação e a questão de se assumir ou não.

Sobre esse último ponto, aliás, a psicóloga é enfática: "Psi, se você tenta fazer sua paciente lésbica 'sair do armário', pare agora mesmo! Você pode atrapalhar mais do que ajudar. Muitos psicólogos, motivados por uma boa intenção de querer ver suas pacientes lésbicas se assumirem e serem aceitas pela família, acabam estimulando a saída do armário dessas mulheres".

Segundo a psicóloga, querer que sua paciente seja aceita não é uma coisa ruim. Mas nem sempre 'sair do armário' é o que a paciente quer ou pode. "Além disso, as escolhas de vida elaboradas na clínica devem partir dos desejos da própria paciente — mesmo que suas motivações sejam as melhores."

Angélica explica que cada capítulo do livro começa com um conto curto sobre uma mulher fictícia cuja história servirá de base para análises técnicas. "Ou é uma mulher lésbica que tá indo na terapia, ou uma mulher que tá se descobrindo lésbica, ou uma terapeuta que está atendendo uma lésbica. A partir da história dessa pessoa, eu elaboro as questões práticas, mais próximas da vida real. A linguagem é direcionada a psicólogos, mas acho que mulheres lésbicas podem fazer bom uso desse livro também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL