PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Morango

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Multiartista em ascensão, Salemm destaca orgulho de ser cria da Rocinha

Fotógrafa, modelo e rapper, aos 23 Salemm é multiartista em ascensão  - Dree Beatmaker/Reprodução/Instagram)
Fotógrafa, modelo e rapper, aos 23 Salemm é multiartista em ascensão Imagem: Dree Beatmaker/Reprodução/Instagram)
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

https://universa.uol.com.br/colunas/morango

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

13/10/2021 04h00

Com o olhar sensível e apurado de quem nasceu e cresceu na Rocinha, a maior favela do país, com uma população estimada em 150 mil habitantes, Salemm traduz, com maestria, a realidade cheia de cores dos "cria".

A gíria, derivada da palavra "criação", é usada para dizer que uma pessoa nasceu em um determinado local. Salemm é cria da Rocinha. E começou, despretensiosamente, a fotografar outros crias. Assim surgiu @afotogracria, também conhecido como "Estética Brasileira", perfil que existe há pouco mais de um ano e tem mais de 115 mil seguidores nas redes sociais.

Beleza na comunidade

"Quando criança, eu não tinha nenhum orgulho de morar na favela. Eu descia um ponto depois para fingir que não morava aqui na Rocinha. Foi um processo bem ruim no começo da vida. Um dia, meu pai chegou em casa com um livro do André Cypriano, chamado 'Rocinha', e nesse livro tinha coisas do meu dia a dia: a passarela que eu atravessava para ir à escola, a rua principal, e tinha até o meu beco. Aquilo ali me trouxe um orgulho muito grande! Comecei a achar a Rocinha bonita", revela.

O livro "Rocinha", de André Cypriano, que mudou o olhar de Salemm sobre sua realidade  - (Foto: Arquivo pessoal) - (Foto: Arquivo pessoal)
O livro "Rocinha", de André Cypriano, que mudou o olhar de Salemm sobre sua realidade
Imagem: (Foto: Arquivo pessoal)

O orgulho de seu lugar de origem, que surgiu a partir do contato com o livro, por volta dos 8 anos de idade, foi potencializado pelas oportunidades de crescimento na adolescência. Através dos projetos sociais desenvolvidos na comunidade, Salemm pôde fazer balé e aprimorar a escrita, especialmente a poesia.

"Tem um escritor aqui na Rocinha, que é o Joilson Pinheiro, que foi muito importante para mim. Ele dava aula de poesia no projeto social onde eu fazia balé, e eu mostrei para ele as coisas que eu fazia. Ali, ele disse que o que eu escrevia era poesia. Ele levou a gente em sarau, para declamar na rádio que tinha na Rocinha... Foi um processo muito bom de descoberta de arte. Desde então comecei a escrever bastante, a ler muitos poetas e ir guardando essas coisas."

De bailarina a atleta, de atleta a modelo

Do balé, Salemm migrou para o bodyboarding, e competia em todo o litoral brasileiro. Como atleta, precisava posar para as marcas dos patrocinadores - a maioria, comerciantes da Rocinha. A desenvoltura em frente às câmeras começou a chamar a atenção e não demorou para que ela passasse a integrar o cast de uma das principais agências de modelos do país, a Squad.

O bodyboarding faz parte da cultura da favela da Rocinha, que fica a 1 quilômetro da praia e é uma das válvulas de escape pros moradores jovens. A prática de esportes radicais é muito forte dentro da comunidade. Atualmente existem três escolas de surfe na Rocinha.

A prática de esportes radicais, como o bodyboarding, faz parte da rotina de muitos jovens da Rocinha  - (Foto: Salemm/Reprodução/Instagram) - (Foto: Salemm/Reprodução/Instagram)
A prática de esportes radicais, como o bodyboarding, faz parte da rotina de muitos jovens da Rocinha
Imagem: (Foto: Salemm/Reprodução/Instagram)

Da Rocinha para o mundo

Fotógrafa, modelo, rapper. Aos 23 anos, tendo o talento reconhecido em múltiplas frentes, Salemm, que é filha de uma empregada doméstica que sonhava em ser contadora de histórias, e de um garçom que queria ter se tornado DJ, celebra o lançamento de seu primeiro single, "Falso Tralha". Disponível nas principais plataformas de música como Spotify e Deezer, e já com clipe no YouTube, o trabalho foi integralmente produzido na Rocinha.

"Os projetos sociais mostraram que eu podia fazer as coisas. Meus pais não tiveram a mesma oportunidade. O pessoal me reconhece bastante aqui na favela, fala que gosta, que entende que [a música] é uma crítica, e tem muita coisa para vir por aí ainda", promete.

Salemm faz sucesso nas redes com a estética brasileira ​ - (Foto: Bruna Blumenberg/Reprodução/Instagram) - (Foto: Bruna Blumenberg/Reprodução/Instagram)
Salemm faz sucesso nas redes à frente e atrás das câmeras revelando a estética brasileira
Imagem: (Foto: Bruna Blumenberg/Reprodução/Instagram)

Aos fãs e admiradores que se inspiram em sua trajetória, Salemm lança a braba: "Não desistam dos seus sonhos. Principalmente quem mora em favela ou quem mora no interior. A gente já nasce com as portas fechadas, né? Irmão, derruba a porta. Entra pela janela. Só não desiste. Eu não cheguei lá onde eu quero ainda, mas a vida que eu tenho hoje... Eu não faria nada diferente. Já pensei em desistir várias vezes, mas nunca desisti do que me trouxe até aqui. Eu queria muito que outras pessoas chegassem aqui onde eu tô, no meio do caminho, que já é bom, já tem uma vista bonita".