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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nem toda mãe é uma leoa: eu renasci aos 23 ao cortar o vínculo com a minha

A colunista Morango fala por que rompeu com sua mãe - Arquivo pessoal
A colunista Morango fala por que rompeu com sua mãe Imagem: Arquivo pessoal
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

05/05/2021 04h00

Outro dia, no Twitter, uma brincadeira interessante passou pela minha timeline: "Se você tivesse um filho com a idade que a sua mãe teve você, quantos anos ele teria?". "Treze", respondi de imediato, ficando levemente impactada pela constatação. Eu tenho 36.

Eu? Com um filho de 13 anos? Seria um menino ou uma menina? Sempre que pensei na possibilidade de ser mãe, me imaginei como mãe de um menino. Mas, aos 23, idade que minha mãe tinha quando nasci, eu me formava em jornalismo. E estreava como repórter e apresentadora numa grande emissora de TV, uma afiliada Record. E comprava o meu primeiro carro. Não havia a menor possibilidade de conciliar tudo isso com a maternidade. Ou havia?

Aos 23 anos, em 1985, minha mãe era uma mulher casada, que trabalhava como modelista e costureira e tinha abandonado a faculdade de artes plásticas. Meus pais tiveram um casamento extremamente conturbado que, entre muitas idas e vindas, durou nove anos. Ela nunca voltou para a faculdade e culpava o meu pai por isso. Depois do divórcio, passou a responsabilizar a mim e ao meu irmão pela eterna falta de tempo e de dinheiro.

Mais que ouvir palavras duras, nós dois sofremos torturas físicas e psicológicas até a adolescência. "Pé de galinha não mata pinto", ela tentava justificar a terceiros, numa analogia ilógica.

Tenho algumas cicatrizes nas costas, mas as maiores e mais doídas não são aparentes. Vivi muita coisa absurda até os dez anos. E então tive a minha primeira epifania. Quando já não via luz no fim do túnel, tive uma visão do meu futuro. Enxerguei um clarão, depois uns flashes e me vi adulta. Como cenas do filme da minha vida que ainda não tinha acontecido. Naquele momento, fui instantaneamente arrebatada por uma paz inexplicável. Com as pernas trêmulas, me sentei no chão e comecei a rezar, agradecendo pela resposta divina.

Corta para 2008, no dia da celebração da minha formatura. Eu tinha exatamente 23 anos. À mesa, entre amigos e familiares, havia umas 15 pessoas. Minha mãe, que estava sentada ao meu lado, murmurou: "Você podia ter um filho, né? E entregar para eu cuidar". Um calafrio percorreu a minha espinha. Foi um gatilho.

Apanhei da minha mãe até os 16, quando finalmente decidi morar com a minha avó paterna, Felicidade, que sempre me amou, me acolheu e me educou sem nunca levantar a voz ou o chinelo.

Em 2008, eu não sabia o que era gatilho. Entendi com o passar dos anos, quando tantos assuntos necessários ganharam projeção. Aquela "sugestão" no jantar foi suficiente para despertar traumas que estavam adormecidos. As lembranças cruéis que eu tentava borrar na memória vieram à tona com uma força avassaladora.

Aos 23 eu não dei à luz uma criança, mas renasci ao cortar completamente o contato com minha mãe — o que não foi difícil, porque na verdade nunca fomos próximas. Entendi que minha ligação com ela nunca foi por amor, mas medo. Precisei me libertar do vínculo e da culpa por não tê-lo.

Mães do BBB

Juliette do BBB 21 com a mãe, Fátima - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Juliette do BBB 21 com a mãe, Fátima
Imagem: Reprodução/Instagram

No BBB21, algumas mães se destacaram por agirem como verdadeiras leoas em defesa dos filhos. Ana, a mãe de Arcrebiano; Fátima, a de Juliette, e Jacira, a de Gil, são exemplos que nos divertiram e nos emocionaram em suas redes sociais.

Onze anos atrás, durante o BBB10, a minha concedia entrevistas sensacionalistas colocando em xeque o meu caráter e até a minha orientação sexual para ter seus cinco minutos de fama. Foi chocante, mas não surpreendente.

Mulheres que têm filhos e são abusivas existem, e precisamos falar sobre isso

Mães amorosas e acolhedoras, também. E em maior número, felizmente, senão a gente tava igual o Brasil: lascadooo!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL