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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O golpe tá aí: 6 mitos lésbicos em que você já acreditou (e eu também)

Arquivo pessoal/Mayara Gomes
Imagem: Arquivo pessoal/Mayara Gomes
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

12/02/2021 04h00

Pouca gente sabe, mas quando uma mulher se assume lésbica ela recebe em casa, em até 5 dias úteis, um kit contendo uma camisa xadrez preta e vermelha, um cd da Anavitória, um violão e um box com as 7 temporadas de Orange Is The New Black. Brincadeira. Mas se por um instante você desejou que fosse verdade, entendeu automaticamente como a gente acredita no que quer acreditar.

Acho que o mito mais propagado é o "vou virar lésbica porque homens dão muito trabalho". Quando eu ouço esse dá vontade de pegar pela mãozinha, sentar no meio-fio e falar "amiga, vem cá, deixa eu te contar uma coisa".

Uma não, já vou contar logo seis:

  1. Não existe "virar lésbica", muito menos por decepções amorosas. Aliás, se decepções amorosas tivessem esse poder de transformar completamente a sexualidade de alguém da noite pro dia, eu seria a maior hétero da paróquia.
  2. "É lésbica porque não conheceu um homem de verdade". Esse é um outro mito que me faz revirar os olhos com tanta força que temo que um dia não voltem ao normal. Essa fala é problemática em muitos níveis. O principal deles é deslegitimar uma orientação sexual. E orientação sexual não é escolha.
  3. "O relacionamento entre duas mulheres deve ser mais fácil que entre um homem e uma mulher". Não, não é. Estamos falando de seres humanos e toda a complexidade e subjetividade que isso envolve. Em relacionamentos hétero ou homoafetivos sempre haverá desafios - só que diferentes.
  4. "Sapatão chupa bem". A fetichização de mulheres lésbicas é extremamente tóxica. Tanto para pessoas heterossexuais, que podem acreditar que nunca atingirão esse "ideal"; quanto para as próprias lésbicas, que podem se frustrar por achar que esse é um "padrão". Sexo oral, como qualquer outra modalidade sexual, fica melhor com prática, parceria e, sobretudo, vontade. Também é importante lembrar que nem todo mundo curte fazer ou receber. E tá tudo bem.
  5. "Lésbica que performa feminilidade é passiva, e sapatão que não performa é ativa". Tá aí uma outra falácia, bastante difundida até na própria comunidade LGBTQIA+. Esqueça os estereótipos. A maneira de se vestir ou se portar não revela, tampouco determina, a preferência sexual de alguém na cama.
  6. "Toda lésbica...". Essa crença de que "toda lésbica (insira aqui a ideia preconceituosa)" é a mais grave de todas. Porque não existe "toda lésbica". Generalizar vivências e experiências, mais que um equívoco, é um problema, porque provoca o apagamento individual.

De forma prática, trazendo o meu exemplo: sou uma mulher lésbica. Entendi isso por volta dos 16 anos de idade. Esse é o meu lugar de fala. Mas isso não me torna uma representante de todas as mulheres lésbicas. Uma mulher que se entende lésbica aos 40, aos 50, ou aos 100 anos de idade não é "menos lésbica" por isso.

Mulheres lésbicas, aliás, mesmo com muitas afinidades entre si, podem ter (e têm) opiniões divergentes sobre os mais variados assuntos. Opiniões, gostos e preferências.

(A propósito, nunca assisti a um episódio de Orange Is The New Black, mas, por favor, não conta pra ninguém senão eu perco a minha carteirinha do brejo.)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL