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Referência, ela criou uma rede de conexão para mulheres, o Surfistas Negras

Ex-surfista profissional, Érica integrou a elite do surfe nacional em 2009, o Super Surf  - Reprodução Instagram/Fabiano Passos
Ex-surfista profissional, Érica integrou a elite do surfe nacional em 2009, o Super Surf Imagem: Reprodução Instagram/Fabiano Passos
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista do UOL

28/10/2020 04h00

"O que mais me inspira nesse momento atual, estando à frente do movimento Surfistas Negras e participando do podcast Na Praia Delas, é que hoje em dia as mulheres estão muito mais empoderadas e abertas ao diálogo. Estão estimulando mais umas às outras e lutando pelas causas umas das outras", analisa Érica Prado, uma das vozes mais potentes do esporte brasileiro hoje.

Baiana de Itacaré, cidade com apenas 20 mil habitantes, Érica começou a surfar na adolescência, incentivada pelo irmão. Hoje, aos 31, ela não se dedica mais ao surfe competitivo, mas, como jornalista, influenciadora digital e podcaster, impulsiona milhares de mulheres. "É sobre ocupar espaços, sobre olhar para o lado e se reconhecer", pontua.

Racismo no esporte

"Fiquei muito tempo, a minha carreira inteira, sem um patrocínio principal de uma marca de surfwear. Eu não associava isso ao fato de ser uma mulher negra. Com o passar dos anos, comecei a identificar que as meninas que tinham esse apoio eram meninas brancas, loiras e que representavam aquele estereótipo californiano que a todo tempo vem sendo reforçado pela mídia", analisa Érica.

surfista 1 - Reprodução Instagram/Stéph Munnier - Reprodução Instagram/Stéph Munnier
"Colocar pra fora o que eu sentia e o que me incomodava há tanto tempo ajudou muitas mulheres e me ajudou também, porque é um processo de troca"
Imagem: Reprodução Instagram/Stéph Munnier

E ela vai além: "Na época, achei que era só uma falta de sorte ou de indicação. Depois entendi que não. As grandes marcas, quando querem, encontram o atleta. Mesmo surfando bem e sendo uma profissional dedicada, não tive o meu trabalho reconhecido por puro racismo. É racismo, não tenho que ficar cheia de dedos pra falar", afirma.

Se você parar pra observar, o perfil das meninas que têm patrocínio hoje em dia e das meninas que tinham há dez anos é o mesmo. E as meninas que não têm patrocínio continuam sendo as meninas negras nordestinas. É um racismo escancarado agora. Era velado, mas escancarado.

Depois de muitos anos, Érica percebeu que essa escolha não era uma questão de identificação da marca com a esportista.

O pulo da gata

Érica se mudou para o Rio de Janeiro em 2007, por causa da faculdade. Nos três primeiros anos na capital, conciliava as aulas de surfe que dava com os estudos e as viagens para competir. "O dinheiro que eu ganhava em um campeonato era o dinheiro que eu investia para ir para outro", lembra ela, que em 2010 começou a trabalhar como jornalista especializada, no canal de esportes Woohoo.

surfista 2 - Reprodução Instagram/Paulo Henrique Costa Blanca - Reprodução Instagram/Paulo Henrique Costa Blanca
"Foi por conta do surfe que eu fui chamada pra fazer a série Juacas (Disney Channel). Foi por conta do surfe que eu fui chamada pra entrar no canal Woohoo. O surfe tem me proporcionado experiências diferentes e sou muito grata"
Imagem: Reprodução Instagram/Paulo Henrique Costa Blanca
Érica Prado - Reprodução Instagram/Anna Veronica - Reprodução Instagram/Anna Veronica
Érica promoveu o 1º Encontro Nacional de Surfistas Negras e Nordestinas em 2019
Imagem: Reprodução Instagram/Anna Veronica

"De um lado, passava muito perrengue pra competir: dormia em rodoviária, pegava ônibus e passava dois dias viajando pra chegar ao sul do Brasil ou ao Nordeste. Quando virei a jornalista especializada em surfe, tive privilégios. Passei a ser tratada de forma diferente", conta.

Ela diz que, ao cobrir eventos, viajava com tudo pago, de avião e ficava em hotéis à beira da praia. "Foi um contraponto muito sinistro. Mudei do surfe competição pro jornalismo em 2011 e tô nessa até hoje. O surfe abriu portas pra mim ao longo desses anos na TV, não só no jornalismo, e sou muito grata ao esporte em tudo o que eu vivi."

Surfistas Negras

"Muitas meninas nunca tinham surfado porque não que se identificavam com o esporte, não se viam representadas. A partir do momento em que criei o movimento Surfistas Negras, elas se sentiram mais encorajadas, viram que existem milhares de meninas que pegam ondas e que são negras no mundo todo, não só no Brasil", explica.

"As pessoas me escrevem para me parabenizar e contar que começaram a surfar porque me viram. Mulheres mais velhas, inclusive, que sempre quiseram surfar e nunca surfaram. Aí quando veem uma foto lá, de uma surfista de 40 e poucos anos, descobrem que também podem começar", celebra Érica, sobre o sucesso do Surfistas Negras, que só no Instagram já conecta diretamente quase 6.000 mulheres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL