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Mayumi Sato

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Raquel Pacheco: 'Se não fosse Bruna Surfistinha, seria trouxa para sempre'

Raquel Pacheco ficou famosa como a garota de programa Bruna Surfistinha - Flavia Staut/Divulgação
Raquel Pacheco ficou famosa como a garota de programa Bruna Surfistinha Imagem: Flavia Staut/Divulgação
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Mayumi Sato

Mayumi Sato é meio de exatas, meio de humanas. Pesquisadora e diretora de marketing do Sexlog quer ressignificar a relação das pessoas com o sexo e, para isso, acredita que é preciso colocar a mão na massa, o que inclui decodificar o comportamento humano. Ao longo dos anos, estudando e trabalhando com o mercado adulto, passou a fazer parte de uma rede de mulheres interessadas e ativistas no assunto, por isso sabe que não está "não estamos" só. Idealizadora do cínicas (www.cinicas.com.br) e feminista sex-positive.

Colunista de Universa

03/04/2022 04h00

Já faz mais de uma década que o filme "Bruna Surfistinha", interpretado pela atriz Deborah Secco, foi lançado, contando a história de vida de Raquel Pacheco enquanto garota de programa.

Conversei com Raquel para saber o que o filme significou na sua história —pessoal e profissional— e quais projetos ainda pretende realizar.

Veja, abaixo, trechos da entrevista.

UOL - Raquel, ainda hoje, muitas pessoas te abordam como Bruna?

Raquel Pacheco - A maioria me chama de Raquel, mas muitas pessoas ainda me abordam como Bruna, e para mim tudo bem. Eu aceito, respondo, tenho essa questão muito bem resolvida dentro de mim. A Bruna faz parte de mim; Raquel não vive mais sem Bruna nem Bruna sem Raquel.

UOL - O que Bruna Surfistinha representa para você?

É meu alter ego, meu outro eu. Quando eu estou como Bruna Surfistinha, eu sou completamente diferente do que como Raquel. Eu, como Raquel, sou muito coração. A Bruna me traz razão, o que eu preciso ter comigo.

UOL - Quais ensinamentos Bruna trouxe para a sua vida?
O principal ensinamento foi ter uma boa convivência com pessoas totalmente diferentes de mim. Na época da prostituição, principalmente quando eu trabalhava e morava com tantas garotas de programa, eram mulheres completamente diferentes umas das outras. Aprendi muito com elas a conviver, respeitar o espaço das pessoas, a privacidade, a maneira de ser. Pelo fato de ter clientes de todos os tipos, eu aprendi com a Bruna também a gostar das pessoas, a querer entender quem são. Mas também a não confiar em todas elas. Eu, como Raquel, seria trouxa para sempre.

UOL - Sobre o filme, você sente que foi algo positivo ou negativo na sua vida?

O filme foi extremamente positivo, foi um marco na minha vida.

UOL - Enfrentou muito preconceito com toda essa exposição?

Senti que a exposição amenizou o preconceito, acho que as pessoas começaram a enxergar o lado humano da prostituição. Acabei representando e dando voz às prostitutas —que têm uma vida normal, cometem erros e acertos como todo o mundo.

UOL - O que mudou na sua história do lançamento do filme para cá?

Faz mais de dez anos já, é muito tempo. Mudou muita coisa dentro de mim como Raquel, e na vida da Bruna também. Amadureci demais, me separei depois de um casamento que durou de 2005 até 2015. Passei por uma fase com depressão, fui para o fundo do poço por conta disso, consegui sair, recomecei minha vida. Conheci meu noivo em setembro de 2020 e agora estamos aqui, com duas filhas gêmeas. Neste período, recomecei a minha vida umas três vezes.

UOL - Quem era a Raquel de antes e quem é a Raquel agora?

A Raquel de antes era muito ingênua, e hoje não. Precisei recomeçar minha vida várias vezes e, em cada recomeço, acabo tendo mais compreensão sobre mim, sobre o mundo, sobre a vida. A Raquel de antes era uma menina ingênua, que se jogava sem pensar nas consequências. Hoje não sou mais inconsequente. Trago muito meu lado racional quando preciso tomar alguma decisão. Agora, sendo mãe de duas crianças, tenho que pensar não apenas em mim, mas também nelas. Não posso fazer nada de maneira impulsiva e inconsequente.

UOL - O que a Raquel de hoje diria para a Bruna de dez anos atrás?

Eu diria que as mensagens das pessoas me machucariam em algum momento, mas que não era para me permitir [sentir] isso. E também para saber lidar com os juízes da internet, que acham que sabem muito sobre nós e que têm o direito de nos julgar.

UOL - Como está a sua vida profissional?

Após três anos com a carreira em pausa, estou recomeçando a minha vida profissional como embaixadora do Buupe [espécie de rede social de influenciadores]. Para mim está sendo muito importante, porque estou em um momento da minha vida em que eu resgatei, após a gravidez, a minha autoestima. Quero muito oferecer um conteúdo bacana.

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Fica a dica para o próximo final de semana! O filme "Bruna Surfistinha" está disponível no GloboPlay. Você já assistiu? Me conta aqui nos comentários o que achou e o que mais chamou a sua atenção.

Mayumi Sato