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Mayumi Sato

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Idade e desejo: novela expõe questões sensíveis às mulheres no swing

Rebeca (Andréa Beltrão) indignada após tentativa de swing do marido - Reprodução GloboPlay
Rebeca (Andréa Beltrão) indignada após tentativa de swing do marido Imagem: Reprodução GloboPlay
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Mayumi Sato

Mayumi Sato é meio de exatas, meio de humanas. Pesquisadora e diretora de marketing do Sexlog quer ressignificar a relação das pessoas com o sexo e, para isso, acredita que é preciso colocar a mão na massa, o que inclui decodificar o comportamento humano. Ao longo dos anos, estudando e trabalhando com o mercado adulto, passou a fazer parte de uma rede de mulheres interessadas e ativistas no assunto, por isso sabe que não está "não estamos" só. Idealizadora do cínicas (www.cinicas.com.br) e feminista sex-positive.

Colunista de Universa

19/12/2021 04h00

Nesta semana, a trama da novela "Um Lugar ao Sol", no ar pela Rede Globo, chamou a atenção após exibir cenas envolvendo o casal Túlio (Daniel Dantas) e Rebeca (Andréa Beltrão). Nela, os personagens vivem um casamento em crise motivada por questões comuns em muitos relacionamentos: o descompasso do tesão entre os parceiros, dificuldade do diálogo aberto e franco, incluindo também as inseguranças motivadas pelo envelhecimento.

Rebeca e Túlio, casados há muitos anos, já passaram dos 50 e querem fazer o relacionamento voltar a funcionar. Sofrendo com a falta de desejo por parte do marido, a personagem se sente cada vez mais intimidada pelas marcas do tempo. Ela, que na juventude foi uma modelo de sucesso, hoje se vê preocupada com rugas, manchas, ressecamento vaginal, tudo somado a muita desconfiança e falta de interesse, o que mexe com a sua autoestima; ainda assim, ela se esforça para seduzi-lo.

Buscando reaquecer a relação, os dois marcam um jantar romântico. O problema é que Túlio decide programar uma troca de casal, pasmem, sem avisá-la. Ao chegar ao restaurante, são recebidos pelo outro casal que deixa claro ali as suas segundas e terceiras intenções.

Não é preciso ser vidente para saber que o clima azedou e nada deu certo.

Toda essa cena é muito parecida com parte do enredo do filme disponível na Netflix "Se organizar direitinho..." do qual falei semana passada; e a repetição aqui não é mera coincidência. É extremamente comum que casais "tradicionais" depositem em fantasias sexuais a esperança de consertar o que não vai bem. O que, sabemos, costuma deixar as coisas ainda piores.

É como tentar consertar um bolo ruim com uma cobertura boa. Pode até parecer que está dando certo, mas no fundo as coisas continuarão como estão.

Crise com o envelhecimento

O que me chamou atenção aqui foi a inclusão na novela de um elemento que não aparece no filme: a crise com o envelhecimento. É bastante nítido, para nós mulheres, que o mundo não suporta que envelheçamos. A sensação é de que dá até pra aceitar, desde que você esconda qualquer marca visível da passagem do tempo. Cremes, procedimentos estéticos, maquiagens, a partir de uma certa idade —e nem precisa ser tanta assim —, todos os cosméticos e tecnologias disponíveis para o universo feminino parecem apontar para um só lado: a negação de que a idade um dia chega.

Dias desses pedi lá no meu Instagram para as pessoas compartilharem suas histórias de idas malsucedidas ao swing. Recebi muitos causos divertidos, que depois viraram destaque, mas percebi também um padrão: muita gente dizendo que a ida ao swing foi um fracasso porque acabou encontrando por lá gente muito mais velha.

Me entristece perceber o quanto a sexualidade das pessoas vai sendo apagada com o tempo, e como elas deixam de ser vistas como pessoas desejantes e desejáveis. Vá lá que ninguém precisa se sentir obrigado a ter atração por quem quer que seja, mas perceber que algumas pessoas usavam expressões de nojo e repulsa para se referir a outras por conta da idade, me entristeceu.

Sabendo que, estruturalmente, esse tipo de pensamento é ainda pior para as mulheres (tanto do mundo, quanto de nós para nós mesmas), é o que explica uma sensação comum no swing, a de ver muitos casais "de mentira": homens de meia-idade acompanhados de mulheres muito mais novas, algumas delas contratadas para estarem ali.

Pedi uma pequena pesquisa ao Sexlog que identificou que ali no universo liberal, cerca de 20% das pessoas declaram abertamente que não lidam bem com a própria idade e 44% não se sentem à vontade no swing se todos os outros participantes forem muito mais novos. 39% acham que nesse tipo de ambiente, o ideal é que as pessoas tenham idades parecidas para rolar algo legal. Ainda sobre o tema trazido pela novela, quase metade, 37%, comentou que já esteve em uma situação em que alguém estava "tramando" uma troca de casal sem declarar abertamente isso. A surpresa? Para a maioria, quase 63%, a tática acabou dando certo.

Por aqui, continuo recomendando ser claro e objetivo quando a ideia for introduzir uma nova prática sexual em sua relação. Mas e você? É da turma que convida abertamente ou vai dando um jeitinho, ajeitando a situação? O que costuma dar mais certo por aí? Me conta nos comentários!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Mayumi Sato