PUBLICIDADE

Topo

Mayumi Sato

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Sou submisso, masoquista e podólatra": adepto do BDSM conta experiências

iStock
Imagem: iStock
Mayumi Sato

Mayumi Sato é meio de exatas, meio de humanas. Pesquisadora e diretora de marketing do Sexlog quer ressignificar a relação das pessoas com o sexo e, para isso, acredita que é preciso colocar a mão na massa, o que inclui decodificar o comportamento humano. Ao longo dos anos, estudando e trabalhando com o mercado adulto, passou a fazer parte de uma rede de mulheres interessadas e ativistas no assunto, por isso sabe que não está "não estamos" só. Idealizadora do cínicas (www.cinicas.com.br) e feminista sex-positive.

Colunista de Universa

18/04/2021 04h00

O universo BDSM é diverso e praticamente impossível de ser 100% compreendido e mapeado. Ele segue algumas diretrizes universais, como a necessidade de consenso para realização das práticas, mas fora algumas regras básicas, ele é cheio de variações e nuances.

Tenho aprendido muito conversando com dominatrixes profissionais e recentemente tive curiosidade de começar a entender as pessoas "atendidas" por elas.

Recebi a indicação do Schiavo Renato, engenheiro, do interior de São Paulo. Ele é casado, tem filhos e faz questão de comentar que tem uma relação maravilhosa com a sua esposa, que não é praticante de BDSM, mas sabe das suas práticas desde o início e as aceita com tranquilidade e respeito.

Aprendi muito nessa conversa, sobre a experiência de um submisso e sobre mim também. Percebo como é fácil a gente se apegar a esteriótipos e definições simplistas a respeito de pessoas que tem a coragem de viver os seus desejos. O Renato não tem nada do submisso inseguro que eu, de certa forma, desenhei em minha cabeça!

Aproveitei a nossa conversa para entender um pouco mais sobre as suas experiências. Tem mais curiosidades sobre a vida de um homem submisso? Deixa nos comentários e quem sabe rola uma parte 2 :)

Para começar, o que é ser submisso?

Considero que é a pessoa que sente prazer em servir, idolatrar e se submeter às vontades e desejos da parte dominante (lógico que na prática limites precisam ser determinados e respeitados).

Quando se interessou pela primeira vez por algo com a temática BDSM? Como foi?

Acredito que o praticante de BDSM já "nasce" BDSMer. O que quero dizer é que estes desejos intrínsecos sempre estiveram dentro de nós.

No meu caso, tenho inúmeras lembranças de infância onde eu gostava de brincadeiras onde eu era mandado pelas meninas, brincadeiras de "castigo" onde eu sempre fazia de tudo para perder e receber os castigos delas, ser maltratado ou preso por elas. Lembro também de ficar vendo fotografias de mulheres de botas em revistas femininas, ficar olhando os pés de amigas, etc.

Como foi a transição de se interessar pelo tema para realizar alguma prática?

Quando fiz 18 anos vi um anúncio nos classificados de um jornal que dizia algo como: "Sua dor é meu prazer, venha beijar meus pés, vou baforar a fumaça de meu cigarro na sua cara..." Fiquei encantado com aquilo, prontamente liguei para a anunciante, combinamos de nos encontrar e tive minha primeira sessão.

Dentro do BDSM, quais práticas te interessam?

Eu me considero submisso, masoquista e podólatra. Curto práticas como podolatria (adoração de pés, botas, sapatos femininos, ser pisado, massagear e idolatrar pés, etc), servidão doméstica (mandado a fazer serviços domésticos), spanking (apanhar com acessórios como chicotes, bambu, tapas, etc), velas (queimado com cera das velas), bondage (ser amarrado, preso), ponyplay (ser montado como cavalo), humilhações de forma geral, entre outras.

Como você encontra pessoas para realizar as práticas?

Antigamente era mais complicado, mas com a chegada da internet o acesso e conexão entre pessoas do meio ficou fácil e rápido. Hoje existem diversos canais específicos, como websites, comunidades, redes sociais de relacionamento e plataformas direcionadas ao tema.

Sempre parto do pressuposto que antes de qualquer encontro, o ponto crucial no BDSM é o alinhamento das expectativas das partes, uma conversa num local público e seguro é um caminho que busco seguir antes de me entregar fisicamente a alguém.

Há algum equívoco comum que as pessoas pensam sobre ser um submisso que você pode apontar o que está errado?

Na minha visão, o conceito normalidade é relativo, "o que é normal da aranha é o caos para mosca" já dizia Morticia Addams. Se a pessoa se sente confortável, se a submissão (ou mesmo a dominação) levar a felicidade, ao prazer, por quê reprimi-la?

Ser submisso é algo que se relaciona com todos os aspectos da sua vida (familiar, pessoal, profissional) ou há uma separação entre eles?

Tenho duas vidas e amo as duas. Amo minha vida baunilha (baunilha = convencional/não praticantes de BDSM) e amo minha vida BDSM. São pessoas diferentes e de comportamentos diferentes. Uma vida de uma pessoa lotada de tomada de decisões e outra que apenas obedece e segue ordens.

Saiba mais sobre o tema no episódio #40 do podcast "Sexoterapia": "Frequento casas de swing para ver minha mulher transar com geral"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Mayumi Sato