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Mayumi Sato

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Casados há 22 anos, casal liberal fala segredo do sucesso: "foco no prazer"

Escritores do livro "Casamento com Pimenta", o Casal Pimenta, como é conhecido, organiza festas liberais há 18 anos - Divulgação
Escritores do livro "Casamento com Pimenta", o Casal Pimenta, como é conhecido, organiza festas liberais há 18 anos Imagem: Divulgação
Mayumi Sato

Mayumi Sato é meio de exatas, meio de humanas. Pesquisadora e diretora de marketing do Sexlog quer ressignificar a relação das pessoas com o sexo e, para isso, acredita que é preciso colocar a mão na massa, o que inclui decodificar o comportamento humano. Ao longo dos anos, estudando e trabalhando com o mercado adulto, passou a fazer parte de uma rede de mulheres interessadas e ativistas no assunto, por isso sabe que não está "não estamos" só. Idealizadora do cínicas (www.cinicas.com.br) e feminista sex-positive.

Colunista de Universa

07/03/2021 04h00

É comum que relações que fogem do modelo convencional de monogamia despertem a dúvida sobre o compromisso e a parceria dos casais: será que eles simplesmente não querem levar a sério a relação e estão inventando moda? Ou querem se aventurar por aí e pular de galho em galho como lhe convém?

São perguntas comuns e, convenhamos, esperadas. Aprendemos desde muito cedo que casamento é sinônimo de nunca mais flertar ou transar com ninguém para o resto da vida. Pelo menos, na teoria. Mas, será que tem que ser assim mesmo?

Há alguns anos conheci o Fernando e Fátima. Eles são cariocas, adeptos do meio liberal há 22 anos e conhecidos nacionalmente como Casal Pimenta. Escritores do livro "Casamento com Pimenta" e organizadores de festas liberais há 18 anos, a história deles é um exemplo de como nem toda relação depende da monogamia para funcionar a longo prazo.

Eles estão casados há 22 anos - esse é o sexto casamento do Fernando, que antes tinha relações que duravam de 2 a 4 anos, em média. Já a Fátima teve um relacionamento anterior, de 9 anos.

Ao conversar com o Fernando percebi que "o segredo do sucesso" da relação dele com a Fátima tem mais a ver com respeito, cumplicidade, cuidado um com o outro sem abrir mão da sinceridade, do que necessariamente com o estilo de vida liberal. São uma inspiração!

Como o mundo liberal entrou na relação de vocês? Foi desde o começo?

Tínhamos 32 e 28 anos respectivamente. Após a quinta separação eu não acreditava mais que pudesse ter um relacionamento duradouro. Nós trabalhávamos juntos há anos, e em algum momento, a amizade e admiração se transformaram em romance.

Determinado a ter um relacionamento diferente de todos os outros infrutíferos, aos poucos, fui trazendo a ideia de algo mais leve e tranquilo; como Fátima era católica praticante, foi preciso muito tato para abordar o assunto. Ao todo, até ela aceitar, foi necessário um ano de muita conversa e fantasia na hora do sexo.

Nossa primeira experiência foi num motel com um amigo que conhecemos na internet e a partir daí tivemos a oportunidade de conhecer o meio liberal, que nem sabíamos existir.

Adotamos como estilo de vida, o que contribuiu não só para apimentar nossa relação, mas revigorar o sexo, gerar mais cumplicidade e confiança, fazendo diminuir o ciúme exagerado, além de suprimir o sentimento de rotina em relação a casamento que me corroía por dentro.

Quando vocês relembram as relações anteriores, acham que elas teriam se beneficiado se tivessem entrado no mundo liberal ou teriam terminado da mesma forma?

O meio liberal é para todos, mas nem todos são para o meio!

Pensando desta maneira acreditamos que não> Nossos ex parceiros não se encaixariam neste estilo de vida. Além de ser complicado desconstruir tudo que se aprendeu sobre monogamia, preconceitos e tabus durante toda uma vida, é preciso que haja interesse, vontade e abertura para ao menos pensar neste tipo de vida.

As relações que vivíamos eram marcadas pelo ciúme, autoritarismo e desconfiança, além dos problemas rotineiros de toda relação como trabalho, dinheiro e incompatibilidades. Isso tudo com certeza não resultaria em progresso, tampouco em oportunidade ou liberdade para tratar deste tipo de assunto.

Outra coisa importante: o meio liberal não salva casamentos, mesmo liberais que conhecemos se separam pelos motivos comuns a qualquer pessoa. É necessário um amor fortemente consolidado para a manutenção do respeito, cumplicidade e harmonia, independente do estilo de vida que se opte para viver.

Ao longo desses anos, já chegaram a "fechar a relação" durante algum tempo ou sempre mantiveram as mesmas práticas?

Passamos sim um pequeno período fechados, não por imposição, acordo comum ou desinteresse pelo meio, mas pela insegurança advinda daquela situação. Assim, a medida que nos afastávamos do ocorrido, nos "esquecíamos" dele, estávamos bem e nos sentíamos mais desejosos de voltar, o que fizemos de forma natural e sem imposições.

No meio liberal não há espaço para envolvimentos emocionais entre casais e seus parceiros, tudo acontece ou deveria acontecer apenas pela busca do prazer e da realização das fantasias, de ambos ou de uma ou outra parte do casal.

No livro que lançamos ano passado, contamos particularmente uma passagem que nos gerou um grande transtorno, para abrir os olhos daqueles que não percebem os perigos disfarçados de prazer.

Por isso, para evitar envolvimentos indesejáveis, orientamos, através desta nossa experiencia, não repetir parceiros, para não abrir as portas para sentimentalismos ou afinidades desconexas ao interesse sexual.

Recebo muitas perguntas de pessoas que não sabem abordar o tema com o seu parceiro ou parceira e acabam perdendo a chance de viver algo novo a dois. Qual a dica de vocês para quem está nessa situação?

Também passamos por isso. Na grande maioria, são os homens nos procuram pedindo dicas para "convencer" as esposas, embora muitas mulheres também tenham o interesse de abordar este tipo de assunto com seus parceiros.

Na verdade, existe aí um grande erro, principalmente por parte dos homens. Eles acreditam que sua posição de maridos lhes permite "convencer" ou na verdade "impor" seus desejos e fantasias as parceiras.

Convencer nunca será o melhor caminho!

A ideia é despertar a curiosidade do parceiro(a), com pequenos comentários ou informações a respeito do assunto. Desta forma, é possível medir o grau de interesse e observar a reação do cônjuge, e assim determinar se há abertura ou não para aprofundar o assunto.

Em caso negativo, uma pequena insistência pode ser feita, mas sem colocar em risco o relacionamento. Muitos cônjuges tentam sem sucesso e tendem a forçar um convencimento, o que pode abalar a estrutura do casal. Neste caso, é preciso abrir mão de algo que pode causar malefícios a relação.

Agora, se o caminho se mostrar fértil, nunca se deve dizer: "eu quero isso, eu quero aquilo!"

Paciência e cuidado são primordiais, assim como se certificar que há curiosidade ou interesse do cônjuge, para aí sim conversarem sobre fantasias.

É preciso ter em mente que provavelmente a fantasia de um não será a mesma que a de outro. Assim, conversar e acordar sobre por qual caminho seguir inicialmente é essencial. Utilizar os momentos de sexo para fantasiar sobre os desejos de cada um ajuda muito o casal a se acostumar com o que até então era desconhecido de ambos.

A partir daí, decidir ir a uma casa de swing com a finalidade de conhecer apenas, sem obrigação ou pressão de se envolver ou fazer alguma coisa, ajuda o casal a entender como tudo funciona. Observar como se comportam os liberais para depois, munidos dessa experiencia, decidirem juntos por quais caminhos seguir e acordar tudo que podem ou não fazer, respeitando os limites e tempo de cada um.

Após iniciarmos no meio, com a fantasia inicial do ménage masculino, foi preciso mais um ano até realizarmos nossa primeira troca de casal, tempo necessário para ela desejar e se ver nessa situação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Mayumi Sato