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Matheus Pichonelli

Luta de Maradona contra abstinência me fez rever a relação com a bebida

Primeiro registro de Maradona ao lado do médico Leopoldo Luque                               - Reprodução/Instagram
Primeiro registro de Maradona ao lado do médico Leopoldo Luque Imagem: Reprodução/Instagram
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

25/11/2020 16h37

É assim que eu quero estar se o Palmeiras ganhar o campeonato no próximo domingo.

Foi o que escrevi no Facebook, no já distante 2016. Acompanhava a legenda um vídeo de Diego Maradona, já aposentado, dançando loucaço em volta da piscina, como se imitasse uma galinha.

E foi o que eu fiz no domingo seguinte, quando o Palmeiras foi campeão. Ao menos até onde me lembro.

Nos últimos anos, os vídeos e memes de Maradona mais louco que a She-Ra faziam a festa entre os amigos pelas redes.

Maradona era mesmo doidão. Olha só o cara, dizíamos. Olha o que ele faz. Olha como comemora os gols que assiste pela TV. (Em um desses vídeos ele aparece dançando e mostrando a bunda).

Maradona morreu nesta quarta-feira (25) aos 60 anos. Teria mais 60 pela frente se não tivesse enfrentado tudo o que já enfrentou em relação ao álcool e às drogas. Foi muito homenageado em vida, mas poderia ter sido muito mais. E vivido em paz com os seus após uma trajetória vitoriosa, brilhante, genial.

Sobre seu talento em campo o mundo inteiro, literalmente, já falou nas últimas horas. Sobre suas questões extracampo, também. Aqui não cabe julgamento. Cabe lembrar apenas o que dizem os adeptos da Igreja Maradoniana: nunca julgar o que ele fez na vida dele, e sim o que ele fez nas nossas.

Dito isso, quis contar aqui, neste espaço, uma decisão que tomei semanas atrás após ler uma entrevista do médico particular do craque argentino, Leopoldo Luque. Segundo ele, Maradona trocara o vício da cocaína pelo da bebida. E passava por apuros.

Luque dizia, na entrevista ao jornal Clarín, que a quarentena havia sido especialmente difícil para seu paciente. Isso o levava a beber em excesso e a apresentar mudanças bruscas de humor. E acirrava as tensões familiares já suficientemente delicadas.

Quem tem familiares nessa situação sabe como é. Em março, perdi um tio após uma parada cardiorrespiratória. Como Maradona, meu tio também se excedia na bebida para digerir os amargores da vida e suas contradições. Com ele, tomei meus mais altos (e melhores) porres.

No hospital, onde passou por uma delicada cirurgia, Maradona apresentou sinais de abstinência. O médico relatava dificuldade para convencer o craque a passar por um tratamento complexo e resumiu a situação: "Essa é uma das poucas vezes que se diz não a Diego. Era uma utopia que ficasse mais dias no pós-operatório, ainda que eu sempre quisesse. Ele precisa de muitos cuidados".

Em seus últimos dias, amigos e familiares de Maradona diziam que, sem a bebida, ele não se sentia motivado sequer para levantar. E caía em depressão.

Após ler a entrevista, sem saber que estava próximo o fim de um dos maiores jogadores que já existiu, decidi maneirar na bebida. Tirando uma época pesada da vida, em que saía de um jornal diário, todos os dias, e corria para o bar, não posso dizer que alcoolismo seja um problema hoje.

Mas a dependência de um hábito relacionado ao álcool, sobretudo às sextas-feiras, quando corro para abrir a primeira garrafa de vinho ou cerveja como quem busca uma bolha de ar para respirar submerso nas tarefas diárias, é um alerta constante de que a seriedade ou não do processo depende de um passo à frente. Ou atrás.

E que era preciso parar de romantizar cenas como as bebedeiras de Maradona.

As duas semanas que fiquei sem álcool em casa me mostraram que a dependência pode não ser grave, mas nos ronda como fantasma. Era estranho assistir a uma partida de futebol, um programa esportivo ou mesmo ouvir música sem uma taça ou copo para segurar. Nos primeiros dias, entrei num verdadeiro estado de hiperatividade em busca de novos hábitos, gostos e ambientes da casa para desopilar ou sentir algum alívio existencial ao fim do dia.

Eu simplesmente não conseguia relaxar. Nem ficar em paz com a sensação de que algo me faltava num sábado à noite ou num domingo de manhã. Não era uma crise, mas um incômodo. E um alerta sobre como seria a velhice naquele ritmo.

Comecei a correr como fanático em busca de endorfina.

E recorria ao chá ou ao café nas horas mais impróprias, para manter o hábito de conversar em casa com as mãos ocupadas.

No último fim de semana, ao receber visitas e me animar com um dia de sol, quebrei não só a quarentena, mas um teste que fiz a mim mesmo, para saber como lidaria com uma rotina sem álcool. E voltei à estaca zero. A ressaca moral do dia seguinte, alguma amnésia e os recorrentes pedidos de desculpas no dia seguinte por alguma empolgação etílica me fizeram logo perceber que deveria ter mantido a promessa.

Este texto começou a ser rascunhado, e estava à espera de alguma conclusão, logo que me propus a passar alguns dias, ou meses, se tudo desse certo, a seco. Ele faria mais sentido, acho, se Maradona seguisse em sua batalha. Fica agora como alerta de que podemos e devemos rever nossa relação com o álcool antes de perceber que ela já é grave. Parar de romantizar nossas bebedeiras e a bebedeira de nossos ídolos pode ser um começo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL