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Matheus Pichonelli

Donald Trump precisa conhecer Roberto Carlos para aceitar a derrota

Trump fez homenagem debaixo de forte chuva -  Brendan Smialowski / AFP
Trump fez homenagem debaixo de forte chuva Imagem: Brendan Smialowski / AFP
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

16/11/2020 04h00

Os românticos que me perdoem, mas "Detalhes" é um hino do autoengano.

Na música, o alter ego de Roberto Carlos (feat Erasmo Carlos) toma uma bota e lança uma maldição para a mulher. Ela pode até tentar, mas nunca vai conseguir esquecer o alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. (Sim, essa é outra música, mas o espírito é mais ou menos esse).

Como fantasma, o espírito do amor insepulto vai zanzar a vida dela nos pequenos detalhes da longa estrada. O fantasma vem em forma de gatilho toda vez que ela se depara com uma calça desbotada, ouve o ronco barulhento de um automóvel e até os erros do seu português ruim.

A lembrança vem também em forma de alerta quando um outro cabeludo aparece na rua. Ela nunca vai sentir saudade do ex, mas ele acha que sim e se consola projetando o dia em que poderá dizer: "A culpa é sua". Quem mandou deixar a joia rara fugir? Agora está condenada a ver aquele sorriso infeliz até na moldura do quadro O Grito. Não sei vocês, mas parece bem assustador.

No delírio, o homem rejeitado sonha que vai ser lembrado até nas horas mais íntimas. Como bom vencedor, daqueles que vencem até quando perdem, ele tem a bondade de dar aquele toque para ela, por gentileza, não trocar os nomes dos cabeludos na hora H. Pressupõe, é óbvio, que terá o monopólio do orgasmo alheio pelo resto da vida.

Músicas assim fazem sentido quando somos jovens. Como diz o meme do personagem de Choque de Cultura, aliás, tudo faz sentido quando somos jovens. Porque somos burros.

Como outra música do Rei, somos crianças e não entendemos nada —até que a vida adulta chega de sola em forma de "credo, sai daqui" e mostra que os detalhes de uma relação tóxica provocam mais ojeriza do que suspiro.

Escrevo isso enquanto o mundo acompanha a saga de Donald Trump para entender que a relação dele com a faixa presidencial dos EUA acabou. O milionário excêntrico que nunca ouviu "não" na vida, inclusive quando achou que podia ser presidente, não tem dado ouvidos às autoridades eleitorais e aos chefes de Estado e de governo do mundo todo —menos daqui. Todos já deram parabéns ao rival democrata, Joe Biden.

Donald Trump não reconhece o fim. Jura que quem ganhou a eleição foi ele. Só ele. Mais ninguém. Que sentiu o cheiro de sua vitória nas ruas e ninguém vai tirar dele esse sentimento mágico. Nem as urnas.

Não há confirmação ainda, mas uma das saídas já aventadas, inclusive por colegas republicanos constrangidos pelo escarcéu do antigo chefe, será construir um anexo na Casa Branca para não contrariar o presidente derrotado quando ele disser que é ele quem ainda manda. A sala de comando será uma cópia fiel da original, com seus bonequinhos G.I Joe, peças de Lego, pôsteres do Stallone e um antigo arcade de Space Invaders.

A aposta é que Trump não tenha alcance cognitivo para perceber a mudança. É um jeito de fazer com que ele saia sem ter saído, uma espécie de "Adeus, Lênin" versão ianque.

Outra possibilidade, a que busca consenso pela linha da resignação, é botar o futuro ex-presidente para ouvir o Rei. O nosso.

Embora se trate de um delírio, ou justamente por isso, a medicina tem apontado em "Detalhes" um princípio ativo determinante para o sujeito rejeitado digerir a frustração, amansar a alma e fazer todo mundo ao redor, que sofre com seu inconformismo, ganhar tempo e espaço. O autoengano é um amortecedor que levaria Trump a se conformar que pode até ir embora, mas nunca jamais será esquecido. Será sempre o único. O especial. O rei. O mito. O que precisa sair da vida de alguém —no caso, dos eleitores— para ser valorizado na moeda corrente da saudade, do arrependimento e da estupidez de quem não contou até três antes de deixar um partidão desses, bicho, partir. Só assim, como quem tem uma cenoura na ponta do nariz, é possível seguir, à espera do dia em que todo mundo, num passe de mágica, perceba o equívoco cometido ao trocá-lo por alguém mais confiável e que não cometa os mesmos erros em caixa alta do seu inglês ruim.

A estratégia, claro, é profilática, mas ainda assim é melhor do que deixar a amargura da derrota ser elaborada na linguagem da guerra. Não há estatísticas confiáveis de quantos conflitos foram evitados ao som de Roberto Carlos —e quantos outros teriam sido suspensos se o mundo falasse português e entendessem o nosso grande amortecedor de traumas.

Há quem diga que Trump tenha o ego embrutecido demais para se dobrar ao Rei. Se não funcionar, recomenda-se algo mais pesado, que tenha na ilusão do retorno um argumento para aceitar a bota. Algo como "você pediu e eu já vou daqui..."

A persistirem os sintomas, a playlist com Amado Batista e Reginaldo Rossi deverá ser consultada. Just in case.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL