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Matheus Pichonelli

Caso Mari Ferrer: Dr. Gastão, vergonha é ter pai que fala assim com mulher

Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

04/11/2020 12h53Atualizada em 29/12/2020 14h39

"Peço a Deus que meu filho não encontre uma mulher como você."

Quem for homem e disser que está surpreso ou em choque com a fala do advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho para Mariana Ferrer, que denunciou ter sido dopada e violentada sexualmente em uma festa, o que levou à investigação de André Aranha, cliente de Gastão, por estupro, provavelmente estará mentindo.

Quem já esteve na presença de dois ou mais marmanjos na mesma roda sabe que trazer à baila a tal "malícia de toda mulher" é mais antigo que Adão e Eva. Em nosso mito fundador, é ela quem leva o filho de Deus ao pecado —e, desde então, a norma implícita determina que toda nudez será castigada.

No século 21, serão castigadas e usadas contra as vítimas as poses e fotos para o Instagram. Elas servem de base para atacar a credibilidade de uma jovem de 21 anos que teve coragem de denunciar um estupro, investigado pelas autoridades e que resultou em acusação do Ministério Público a um homem rico, e procurar justiça. Só que em uma audiência Ferrer viu-se cercada de um bando, como mostram as imagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil.

Naquela roda ninguém foi ao socorro de Mariana quando um sujeito com a idade para ser seu pai, como ela mesmo lembrou, disse que as fotos com "dedinho na boca" e "em posição ginecológica" desmentiram a credibilidade do relato de quem agora "só falta uma auréola na cabeça".

Uma mulher que se expõe daquele jeito, segundo a lógica do medalhão, não é mulher de verdade, dessas que queremos para os filhos. É só uma manipuladora que quer fazer "showzinho no Instagram" e não tem reconhecida a veracidade nem das lágrimas, chamadas de crocodilo. Faltou o defensor citar Noel Rosa: "Pra que mentir se tu ainda não tens esse dom de saber iludir?"

Conversas do tipo já ouvimos aos montes. Já repararam o que se diz, nestas rodas, quando alguma mulher acusa um homem de agressão, pede pensão, divórcio ou se retorce como mãe solo? "Na hora de fazer não reclamou", "Ela quer tomar seu dinheiro", "Por que não saiu de casa?", "Elas não ficam satisfeitas e querem levar o assunto de forma provocativa. Então, penso que [bater] é absolutamente correto". Esta última frase quem disse foi Sean Connery, que morreu no último fim de semana sob a insígnia do cavalheiro em extinção.

Nos filmes e novelas, aprendemos a duras penas a desconfiar só agora das histórias que preparam finais trágicos a quem era livre para sair, se vestir e se relacionar como queria, com quem queria. De Madame Bovary às outrora obras-primas de Lars von Trier —hoje merecidamente contestadas pelo sadismo das cenas.

Nessas histórias não sabemos qual será a punição para a Geni da vez —apenas que, seja o que for que ela sofreu, ou é mentira ou ela mereceu.

A cena do advogado é uma entre tantas cenas diárias que vemos em botecos e programas televisivos. Alguém se lembra de um futuro presidente que outro dia mesmo colocava beleza, estupro e merecimento na mesma frase? Ou dizia à cantora Preta Gil que os filhos dele —um deles recém-denunciado, aliás— "foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o teu"?

Diante de discursos assim nós, homens, costumamos reagir com o silêncio bovino ou concordante dos espectadores e testemunhas. O juiz do caso Mari Ferrer, que tinha a prerrogativa de repreender a humilhação, fez apenas cara da mesma paisagem. Alguns certamente estão revoltados com a cena, mas surpresos?

Mariana, que não teve clemência quando expôs a acusação, tem razão em dizer que nem um assassino é tratado como ela foi tratada naquela audiência. De fato, neste país há assassinos condenados disputados por clubes de futebol em busca de protagonismo. E que são tratados como ídolos, meninos ou vítimas de quem só aquieta quando é silenciada.

Há também ídolos condenados por estupro que atribuem o insucesso da carreira ao feminismo que "infelizmente" está aí e o impediu de brilhar. Estes acreditam estar do lado de Deus, o que automaticamente o livra da misericórdia ou compaixão por quem não está nem aí, já que "ela estava completamente bêbada".

No país que produz este caldo, que usa fotos para atacar a credibilidade de quem acusa e minimiza a responsabilidade de "meninos" acusados, o notório advogado agradece por não ter uma filha do nível da vítima, "graças a Deus", e pede que seu filho não encontre uma mulher como ela. São estes os homens de bem.

Está na hora de começar a ter vergonha de pais que falam assim com uma mulher —seja às suas costas, seja diante de uma tela de TV, numa roda de amigos ou em uma audiência judicial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL