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Mariana Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que mata não é o bullying, mas sim as armas

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Mariana Kotscho

Mariana Kotscho é jornalista, repórter do site Papo de Mãe, comentarista do "Bem Estar" da TV Globo, consultora do Instituto Maria da Penha e mentora de curso para jornalistas da Universidade de Columbia.

Colunista de Universa

29/05/2022 04h00

Se o atirador de 18 anos que sofria bullying não tivesse uma arma, ele não teria matado nesta semana 19 crianças e duas professoras em uma escola na cidade de Uvalde, no Texas (EUA). Bullying é, sim, um tema sério, que precisa ser tratado pelas famílias e pelas escolas, olhando principalmente para a prevenção.

Há vários caminhos para evitar essa situação ou resolvê-la, e o uso de armas não é uma opção para solucionar o problema. Aliás, elas só podem causar ainda mais confusão.

Estudos já mostraram que numa mesa de bar, quando sai uma discussão e pessoas partem pra violência, se não tem uma arma, a situação termina em socos, tapas, pessoas machucadas. Mas se existir um revólver, termina em morte.

E outro dia um desses palpiteiros de plantão disse que crianças deveriam andar armadas para se defender. Ora, queremos um mundo de paz ou viver num faroeste?

Não vejo uma arma como item de defesa, mas como um item de assassinato. Ter é considerar matar alguém, afinal ela foi feita para isso. Sendo assim, me parece muito mais prudente pensar em desarmar os criminosos do que em incentivar a população a se armar.

É desesperador demais vermos diariamente nos jornais notícias de pessoas que morrem baleadas. São famílias inteiras destruídas pela violência.

No Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, a cada 60 minutos uma criança ou adolescente morre em decorrência de ferimentos por arma de fogo. Nas últimas duas décadas, mais de 145 mil jovens, com idades entre zero e 19 anos, faleceram em consequência de disparos, acidentais ou intencionais, como em casos de homicídio ou suicídio.

E a maioria dos casos de feminicídio, que é a morte de mulheres por seus namorados, maridos ou companheiros, também é causada por tiros. Se existe uma arma num lar com violência doméstica, o risco da mulher ser assassinada é sempre maior.

Lembro que em 1997 uma grande campanha pelo desarmamento, realizada pelo Instituto Sou da Paz, mobilizou o país. Ali, inclusive fazendo reportagens sobre a campanha, tive uma pequena esperança de que a nossa realidade, um triste cenário de mortes por tiros, mudaria.

Um estudo da ONU apontava o Brasil como o país onde mais se matava por armas de fogo em todo o mundo. Ou seja, um fator de risco que aumentava significativamente as mortes violentas no país era o grande volume de armas em circulação e uma cultura de valorização das armas.

A campanha "Sou da Paz" contou com o apoio de organizações da sociedade civil e de personalidades de diversas áreas. Um dos objetivos era promover a conscientização da população e o outro era fazer uma campanha de desarmamento voluntário - a primeira do país.

Em poucos meses, foram entregues mais de 3.500 armas na cidade de São Paulo, que foram destruídas publicamente. Por causa da campanha e do destaque que ela teve, o Congresso começou a propor medidas concretas de restrição ao uso de armas.

Infelizmente, minha esperança desapareceu com o que se deu nos últimos 25 anos. Não só não conquistamos hoje uma nação desarmada, como há quem defenda armar a população com o argumento de que isso é direito de defesa. Pra mim, isso tem outro nome: é aumento de risco. Normalmente, quem morre em assalto é a vítima, mesmo se estiver armada. Sem contar os casos de balas perdidas ou de morte acidental por arma de fogo.

Então, para que mesmo servem as armas? A solução não está em colocar mais armas em circulação, isso só colabora para enriquecer o setor. E é o poder público que tem a obrigação de garantir a segurança dos cidadãos. Não arme, desarme.

Não foi à toa que o arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, afirmou numa missa no final do ano passado: "para ser pátria amada, não pode ser pátria armada".

O que as grandes instituições, os líderes, os políticos, as celebridades, os famosos, os influencers, a população em geral, estamos esperando para promover uma nova e grande campanha pelo desarmamento no país? Isso é urgente.

Quantos pais e mães ainda vão ter que chorar por seus filhos jovens assassinados por causa de uma briga de trânsito, por um celular ou qualquer outro motivo banal? E até quando teremos apenas perguntas sem respostas? Até quando?