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Mariana Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Choro alto, gritos e irritação: como lidar com as birras dos filhos?

AshleighWellsPhotography/Getty Images/iStockphoto
Imagem: AshleighWellsPhotography/Getty Images/iStockphoto
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Mariana Kotscho

Mariana Kotscho é jornalista, repórter do site Papo de Mãe, comentarista do "Bem Estar" da TV Globo, consultora do Instituto Maria da Penha e mentora de curso para jornalistas da Universidade de Columbia.

Colunista de Universa

22/05/2022 04h00

Quando eu não tinha filhos, um dia recebi um casal de amigos com sua filhinha de uns 2 anos em casa. Eram os primeiros amigos que tinham se tornado pais, a menina era uma graça. Mas era um terror. Ou pelo menos eu a julguei assim. A pequena destruidora chegou à minha casa animadíssima. Em menos de 5 minutos já tinha estilhaçado um daqueles enfeites que a gente ganha de presente de casamento e deixa em cima da mesa da sala. Depois ficou calma, brincou, correu e daí ficou com sono. E quem é mais experiente sabe que criança com sono beira o caos. Chora, esperneia, faz birra.

Eu estava ficando traumatizada e só pensava que quando tivesse filhos eles jamais seriam daquele jeito, que aquilo só podia ser coisa de criança sem limites. Não era. Era, simplesmente, coisa de criança. Paguei minha língua alguns anos depois quando fui com minha filha, no alto dos seus 2 anos, visitar um casal de amigos que já tinha filhos grandes. Desta vez, o terror era minha própria filha e, sim, ela quebrou um cinzeiro bem bonito que enfeitava a mesa da sala. Não, na verdade ela não era um terror, era apenas uma criança de 2 anos.

Não é à toa que esta idade dos 2 anos, a idade da birra, em inglês é chamada de terrible two (ou os "terríveis dois"). É a prova de que aquele bebê cresceu, se desenvolveu e se tornou uma pessoa que testa limites, vontades, que está experimentando ser alguém, mas ainda não tem recursos nem vocabulário para isso.

De acordo com dicionário, birra é o ato ou a disposição de insistir obstinadamente em um comportamento ou de não mudar de ideia ou opinião; teima, teimosia. Ou, ainda, sentimento ou demonstração de aversão ou antipatia, quando renitente e motivado por algum capricho, paixão ou suscetibilidade; implicância, má vontade. Na minha opinião, esta é uma boa definição para a birra do adulto.

Gente grande também sabe ser birrenta e bem chata. Digo isso porque a criança de 2 anos não tem a capacidade de fazer a birra com todas essas más intenções. Mas quem já passou de uma certa idade sabe muito bem fazer uma birra intencional.

Segundo a psicanalista Eva Wongtschowiski, do Gamp 21 (Grupo de apoio à maternidade e paternidade), antes de pais e mães reclamarem da birra das criancinhas pequenas, precisam entender que muitas vezes existe a birra adulta, para tentar perceber o que acontece com os pequenos neste momento de verdadeira "fúria".

A psicanalista destaca expressões birrentas dos adultos, como "não levo desaforo pra casa", tida como uma justificativa para explosões de raiva ou aquela saraivada de palavrões. Uma situação trivial pode adquirir um tamanho surpreendente e desnecessário.

"A criança quando está fazendo birra fica "impermeável", diz Eva, e não é hora de conversar. Birra não é agressividade nem indisciplina, já que uma criança de 2 anos não tem ainda condições para entender isso.

A birra envolve uma espécie de indignação da criança naquele momento, é uma experiência de frustração vivida intensamente e uma declaração de impotência diante de uma situação", explica Wongtschowski, que completa: "Não é indicado deixar uma criança que está fazendo birra sozinha, ela precisa se sentir amparada e não abandonada".

Eu, particularmente, acho errado chamar birra de "adolescência do bebê", assim como acho errado chamar adolescente de aborrecente. Isso demonstra um preconceito com essa fase da adolescência, que pode ser um período muito bom pra família toda, de crescimento, descobertas. Em outras palavras: seja a birra infantil ou adolescente, ela deve ser respeitada. Ignorar não vai adiantar nada.

Mas, então, o que fazer?

Essa é uma daquelas respostas de um milhão de dólares. Ao longo dos anos, entrevistei diversos especialistas sobre este tema - que deram muitas dicas. Na prática, nem sempre funcionam, mas vale tentar. Uma das principais é também a mais difícil: nunca perder a calma quando um filho ou filha está num ataque de birra.

Tem aquela clássica cena do shopping, da criança que faz um escândalo, se joga no chão, berra (normalmente porque não quiseram comprar o que ela queria). A mãe nesta hora se sente a pior criatura do mundo e quer sumir (falo como mãe que sou e passei por isso). Você não sabe se finge que não conhece a criança, se berra, se abraça, se pega no colo e desaparece rapidinho dali. Se os olhos julgadores se tornassem de acolhimento já ajudaria bastante.

Uma informação não muito animadora é que a birra pode começar quando a criança faz um ano e se prolongar até os 3. Depois, costuma melhorar, pois a criança passa a entender causa e consequência, a falar, dialogar, escutar, a compreender que nem tudo vai ser do jeito que ela quer. E cada ano na vida dos pequenos faz muita diferença. Lembrando que, com sono (ou com fome), todo mundo fica um pouco birrento.

Saber lidar com essa fase torna esse momento menos desgastante para a criança e para os pais. É fundamental não apelar para a violência com tapas, beliscões ou palmadas (já sabemos que isso não educa, além de ser proibido por lei). Gritar também não ajuda. A criança aprende pelo exemplo: se os pais agem dessa maneira, elas aprendem a reagir com violência e a disputa será infinita e destrutiva para todos.

Aprendi com uma professora dos meus filhos que, mesmo quando ainda não entendem bem as coisas, nunca devemos dizer "você não é legal" ou "você é chato", mas mudar a frase para "o que você fez não foi legal", "isso que você fez foi muito chato". Afinal, as palavras têm poder e devem ser aplicadas da maneira correta. Isso é respeitar a criança, assim como se abaixar para conversar com ela olhando nos olhos, dizer que entende que ela está brava ou frustrada (depois que ela estiver mais calma). Mudar o foco da birra também ajuda muito, não adianta ficar insistindo no assunto. Introduza outro tema, tente chamar a atenção para outra coisa. Não adianta querer ter uma DR com uma criancinha.

Segundo psicólogos e educadores, se a birra for em público, persistir e houver constrangimento por parte dos pais, a melhor atitude é retirar a criança do ambiente, sem demonstrar irritação e sem conversar. Também existem situações em que não é possível negociar, principalmente quando pode oferecer algum risco à integridade física ou emocional da criança. Depois, é importante conversar, falar sobre limites, o que pode e o que não pode. Aos poucos elas começam a entender. Vale a paciência e a persistência.

Um dos maiores desafios que eu tinha era ouvir aquele choro escandaloso sem perder justamente a tal paciência. Acho que em algumas vezes chorei junto. Passei por isso com os 3 filhos, a gente cansa, mas passa, garanto. Respirar fundo ajuda.

Por fim, não custa alertar que caso a birra esteja passando muito da idade, seja frequente demais e muito intensa, vale buscar a opinião de um especialista que pode checar se está tudo bem com a criança e orientar pais e mães que precisem de uma ajuda. Saber pedir socorro faz parte do nosso papel como cuidadores.